Fornecedores 362
15 OUTUBRO 2026 Fornecedores | Antes de 2020, já se falava em um novo morar, que foi acelerado pela pandemia. Esse “novo morar” imaginado ocorreu similar ou teve algumas diferenças em relação ao que se tendenciava? Brunato | Muitas das transforma- ções já estavam sendo desenhadas porque a indústria precisa pensar e se antecipar a isso, mas sempre há espaço para o improviso e a correção de rotas: espaços mais integrados, ambientes multifuncio- nais, tecnologia, uma relação maior entre interior e exterior, menos rigidez na maneira de ocupar a casa. A pandemia acelerou tudo isso, mas trouxe uma camada que talvez não estivesse tão evidente: a necessida- de emocional dos espaços e, nesse ponto, a Greenplac tem um olhar muito atento e muito pronto. Essa diferenciação está no hábito de ouvir o mercado através dos clientes e ar- quitetos. Não bastava mais integrar. Em alguns momentos era preciso também separar. Não bastava ter tecnologia, era preciso ter silêncio. Não bastava uma casa bonita, ela precisava acolher. Foi interessante porque começamos a falar simulta- neamente de integração e privaci- dade, de convivência e individua- lidade. Parece contraditório, mas é justamente aí que está a riqueza desse novo morar. Talvez tenhamos entendido que não existe mais uma única resposta para a casa contem- porânea. Existem pessoas, momen- tos e necessidades diferentes. E a arquitetura precisa ter liberdade para acompanhar, propor e cuidar. Fornecedores | Sobre a relação casa x escritório, qual foi esse novo significado? Atualmente ele segue o mesmo ou passou por transformações? Brunato | Gosto de pensar que um dos pontos que provocam trans- formações são as pessoas e seus hábitos, e transformações precisam de mais tempo para se consolidarem. Vivemos tempos urgentes, é certo que na pandemia aconteceu quase uma inversão: a casa virou escritório e o escritório precisou aprender um pouco a ser casa. E alguma coisa dessa experiência permaneceu, o que a meu ver tem mais valor que o que passa. As pessoas passaram a esperar mais conforto, acolhimento e identidade dos ambientes corpo- rativos, enquanto a casa incorporou tecnologia, ergonomia e espaços ca- pazes de receber atividades que antes aconteciam exclusivamente fora dela. Acredito que agora estamos entran- do em um momento mais equili- brado. Já não se trata simplesmente de trabalhar em casa ou voltar ao escritório. Trata-se de entender por que queremos estar em cada lugar. Os escritórios precisam oferecer algo que não encontramos trabalhando sozinhos: troca, encontro, cultura, pertencimento. E a casa precisa continuar sendo esse território de in- timidade, proteção e liberdade. Talvez estejamos voltando a compreender o valor do encontro, mas de uma ma- neira muito mais consciente. Fornecedores | Estamos no último trimestre de 2026, já pensando em 2027. Quais são as tendências para o mercado moveleiro? Brunato | Tenho cada vez mais receio de pensar tendência apenas como forma, cor ou estilo. Acho que as transformações mais interessantes estão acontecendo no comportamen- to e que depois se materializam em espaços e produtos. É dessa forma que conversamos sobre materialidade com a Greenplac, por exemplo. Vejo um mobiliário cada vez mais flexível, com peças capazes de assumir diferentes funções e acompanhar espaços que também estão menos rígidos. Ao mesmo tempo, acredito muito na valorização da matéria. Madeira, pedra, metal, vidro, tecidos e superfícies que expressem textura, origem e passagem do tempo come- çam a ganhar ainda mais importân- cia. Também existe uma busca por objetos que permaneçam. Talvez estejamos começando a questionar um pouco essa necessidade cons- tante de substituir as coisas. Para mim, nos próximos anos poderemos escolher diferente, escolher melhor e conviver mais tempo com aquilo que escolhemos. São peças com identidade, boa proporção, bons materiais e capacidade de atravessar diferentes momentos da vida, peças com memórias e identidade. Fornecedores | O comportamento das pessoas e suas diferentes rela- ções com a casa devem balizar de que forma essas tendências e as criações das empresas de móveis? Brunato | Com muita escuta. Acho que as empresas precisam observar menos aquilo que imaginam que as pessoas desejam e olhar mais para a maneira como elas realmente es- tão vivendo. As famílias mudaram, as relações mudaram, a maneira de trabalhar mudou. Existem pesso- as vivendo sozinhas, famílias de diferentes configurações, várias gerações dividindo a mesma casa e espaços cada vez mais híbridos, al- gumas dessas mudanças são resga- tes e não necessariamente o novo a todo momento, por isso acredito menos em soluções fechadas e mais em sistemas que permitam liberda- de. Indústrias como a Greenplac, da qual sou parceiro, têm esse olhar e essa liberdade. Discutimos como o mobiliário pode participar disso ofe- recendo diferentes possibilidades de composição, escala, acabamento e utilização. Assim como na arquite- tura, gosto de pensar que o design não deveria impor comportamen- tos. Ele deveria oferecer possibili- dades. Sob esse aspecto, quanto mais conseguimos compreender as pessoas, mais relevante se torna aquilo que desenhamos. LEIA MAIS Leia as duas últimas per- guntas no emobile.com.br
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