Exportações, tarifas dos EUA e acordo Mercosul-UE em pauta
Depois de impulsionar desaceleração das exportações brasileiras de móveis e colchões no segundo semestre de 2025, tarifaço dos EUA ganha novo capítulo; leia outras novidades
Publicado em 20 de janeiro de 2026 | 08:00 |Por: Thiago Rodrigo

As exportações brasileiras de móveis e colchões encerraram novembro de 2025 em retração, refletindo de forma direta os efeitos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos, principal mercado externo do setor moveleiro. No mês, os embarques totalizaram US$ 62,3 milhões, queda de 8,3% em relação a outubro, quando haviam alcançado US$ 68 milhões.
No acumulado de janeiro a novembro de 2025, as exportações somaram US$ 702,7 milhões, crescimento de 1,5% frente ao mesmo período de 2024. Apesar de positivo, o dado confirma a perda de fôlego na reta final do ano: até outubro, o avanço acumulado era de 2,1%, indicando desaceleração após o esgotamento do movimento de antecipação de embarques observado no início do segundo semestre.
Segundo a Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), os números traduzem uma inflexão relevante do comércio exterior no setor de móveis em 2025, com impactos que se estendem à produção, ao emprego e às decisões de investimento na indústria nacional.
“Após as mudanças na política comercial dos Estados Unidos, muitas empresas anteciparam embarques, gerando um pico artificial de atividade. Com a entrada em vigor do tarifaço e a interrupção de pedidos e contratos, a indústria passou rapidamente de um cenário de crescimento moderado para um processo de ajuste forçado”, afirma o presidente da Abimóvel, Irineu Munhoz.
Queda nas exportações para os EUA
Apesar de ainda representar o maior destino das exportações brasileiras de móveis e colchões, o principal impacto negativo veio dos Estados Unidos, cuja participação caiu de 29,5% para 24,3% na comparação entre janeiro e novembro de 2025 com igual período em 2024.
A redução da participação americana está associada às tarifas de até 50% aplicadas ao mobiliário brasileiro, que alteraram contratos, reduziram previsibilidade e afetaram de forma mais intensa empresas com portfólios altamente dependentes daquele mercado, especialmente de produtos customizados.
Adiamento do tarifaço por categorias e o que muda em 2026
A principal novidade para o início de 2026 foi a decisão do governo estadunidense de adiar para janeiro de 2027 o aumento das sobretaxas sobre determinados produtos de madeira e seus derivados, incluindo madeira serrada, painéis de madeira, além de mobiliário estofado, armários de cozinha e gabinetes de banheiro. Durante 2026, permanecem vigentes alíquotas entre 10% e 25% para a maior parte dessas categorias.
O adiamento reduz, momentaneamente, o risco de um novo choque tarifário, mas não representa normalização das condições de acesso ao mercado. A possibilidade de aplicação futura de sobretaxas mais elevadas segue condicionada ao avanço das negociações diplomáticas e comerciais entre os dois países.
Outra preocupação é que o movimento iniciado nos EUA esteja criando precedentes para que outros países adotem medidas semelhantes, assim como ocorreu com o México, ampliando o grau de restrição ao comércio internacional de bens industriais e afetando a capacidade de redirecionamento das exportações brasileiras.
Ainda na América do Norte, o governo do México aprovou o aumento das tarifas de importação para países sem acordo de livre comércio (o caso do Brasil), afetando a presença do mobiliário brasileiro em mais um de seus principais destinos. A nova faixa de impostos para diferentes categorias de móveis, que variava entre 0% e 35%, passa a ser de 25% a 35%, trazendo menos flexibilidade para o exportador nacional.

Acordo Mercosul e União Europeia
Na União Europeia, o adiamento da aplicação do Regulamento de Desmatamento (EUDR) concedeu prazo adicional para adaptação técnica e operacional, mas não reduziu o nível de exigência regulatória. O acesso ao mercado europeu segue condicionado a critérios rigorosos de rastreabilidade, conformidade ambiental e comprovação de origem, com impactos diretos sobre custos e processos produtivos. A aplicação do EUDR terá início em 30 de dezembro de 2026 para médias e grandes empresas, e em 30 de junho de 2027 para micro e pequenas.
Paralelamente, depois de 25 anos, as negociações do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia finalmente avançaram na última semana. A maioria dos 27 países-membros votou a favor do texto em uma reunião de embaixadores realizada no dia 9 de janeiro, em Bruxelas. O acordo foi aprovado apesar da oposição da França, Irlanda, Polônia e outros países que afirmam que o pacto pode impactar negativamente seu setor agropecuário. A grande “virada” veio da Itália, que acabou cedendo às negociações. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve ir ao Paraguai realizar a assinatura oficial do acordo. Ao ser concluído e ratificado, o tratado dará origem à maior área de livre comércio do mundo.
Diversificação de destinos avança
A retração dos embarques aos Estados Unidos e o aumento das barreiras comerciais em outras regiões, vem sendo parcialmente compensadas pelo incremento da atividade na América do Sul. Entre janeiro e novembro, Uruguai, Chile e Argentina ampliaram sua participação na pauta exportadora brasileira de móveis e colchões, beneficiados pela proximidade logística e menor complexidade regulatória.
Apesar do avanço, a expansão desses destinos ainda se mostra insuficiente para compensar integralmente a perda de volume e valor no principal mercado importador, mantendo o crescimento agregado do setor em patamar moderado e mais exposto a choques externos.
Cadeia de suprimentos cresce em receita
Os efeitos do novo ambiente comercial também se refletem na dinâmica da indústria de componentes, máquinas e demais fornecedores da cadeia moveleira. Entre janeiro e novembro de 2025, as exportações do segmento totalizaram US$ 3,48 bilhões, crescimento de 7,4% em relação ao mesmo período de 2024, quando somaram US$ 3,24 bilhões, segundo dados da Secex, com levantamento do Iemi.
Apesar do avanço, observa-se queda expressiva na participação dos Estados Unidos, que passaram de um marketshare de 40,5% entre janeiro e novembro de 2024 para 31,7% em igual período de 2025. Em contrapartida, Singapura ampliou sua participação de 2,0% em 2024 para 12,8% no ano passado, consolidando-se como um importante parceiro comercial e hub logístico na Ásia; enquanto a Argentina passou de 10,7% para 11,8%.
No contexto da indústria de suprimentos frente às novas barreiras comerciais em ascensão, ganha relevância a decisão da China de reduzir temporariamente, ao longo de 2026, as tarifas de importação de insumos industriais, bens de capital, máquinas e equipamentos, além de produtos do setor florestal, como madeira serrada, painéis de madeira e itens de celulose. Embora não direcionadas ao mobiliário acabado, essas medidas podem beneficiar fornecedores brasileiros, ampliando oportunidades de exportação na Ásia e favorecendo maior integração em cadeias globais de valor.
Perspectivas 2026
O fechamento de 2025 e o início de 2026 confirmam que a cadeia moveleira brasileira opera em um ambiente internacional mais fragmentado e menos previsível, no qual decisões comerciais e regulatórias passaram a ter efeito sistêmico sobre produção, emprego, investimentos e competitividade.
O adiamento das sobretaxas nos Estados Unidos reduz riscos imediatos em alguns segmentos, mas não substitui a necessidade de avanços concretos no diálogo diplomático. Diante desse cenário, a Abimóvel adota uma postura realista e cautelosa. O setor não projeta uma reversão rápida, mas sim um processo gradual de reorganização.
“Para que 2026 avance do ajuste para uma fase de maior estabilização, será fundamental o progresso das negociações comerciais; maior coordenação entre política econômica, industrial e externa; ampliação do crédito ao consumo; e ações voltadas à preservação do emprego e da capacidade produtiva”, enfatiza Irineu Munhoz, presidente da entidade.
Nesse contexto, a Abimóvel seguirá intensificando sua atuação institucional no Brasil e no exterior, defendendo medidas que estimulem o consumo, ampliem a previsibilidade e preservem a competitividade da indústria brasileira de móveis, além de manter sua agenda de promoção comercial, acompanhamento regulatório e presença nos principais fóruns e eventos internacionais do setor.







