Depois da enxurrada, a conta
Meses após as enchentes que devastaram Ubá, o polo moveleiro enfrenta uma retomada lenta: a indústria voltou, mas o comércio ainda sofre
Publicado em 3 de junho de 2026 | 08:29 |Por: Julia Magalhães

Quando a água baixou, começou o trabalho mais difícil. As enchentes que atingiram Ubá (MG) no fim de fevereiro de 2026 destruíram estruturas, varreram estoques e paralisaram o polo moveleiro por semanas. Mas o que a cobertura emergencial não mostrou foi o que ficou depois: a conta que ainda não fechou, as promessas que não se cumpriram e a assimetria entre quem conseguiu se reerguer e quem ainda está tentando.
“Muitas autoridades públicas vieram, gravaram vídeos e reportagens prometendo ajuda imediata, e muitas ainda não vieram”, resume o presidente da Associação Comercial e Industrial de Ubá (Aciubá), Elias Ricardo Coelho. A frase é direta e desconfortável – e resume bem o estado de espírito de quem está na ponta da retomada.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) referentes a fevereiro, março e abril de 2026, Ubá registrou saldo negativo de 311 postos de trabalho. O número pode parecer modesto, mas o contexto muda a leitura. Nos dois anos anteriores, a cidade acumulou saldo positivo de 1.885 admissões. A enchente interrompeu uma trajetória consistente de geração de emprego. E, de acordo com o presidente da Aciubá, há um agravante: parte das demissões não aparece nas estatísticas porque as empresas atingidas ainda não conseguiram pagar as rescisões, o que mantém os trabalhadores formalmente vinculados.

O presidente da Aciubá, Elias Ricardo Coelho, acompanhou de perto a articulação por crédito e apoio aos empresários atingidos | Crédito: Divulgação
Cerca de 30% das empresas comerciais atingidas ainda não reabriram. Algumas estão em reforma. Outras, cerca de 5%, não voltarão. “Hoje, muitos empresários não sabem como e quando vão voltar. A maioria não tem recursos próprios para recomeçar”, diz Elias. O gargalo central é crédito. Mais especificamente, a capacidade de oferecer garantias para acessá-lo. Quem perdeu tudo não tem como provar que tem algo a dar em troca.
O governo federal anunciou cerca de R$ 2 bilhões para reconstrução em Ubá e Juiz de Fora. Na prática, segundo Elias, apenas uma parte chegou à ponta. Dos R$ 500 milhões destinados às duas cidades e geridos por Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, o crédito existe – mas com análise cadastral que muitos dos atingidos não conseguem passar. “Nem todos conseguem contratar devido à análise de crédito a qual são submetidos”, explica. As obras públicas, em sua maioria, ainda nem começaram.
Para o professor José Carlos de Souza, da FIA Business School, o problema vai além do imediato. “O crédito existe em muitos casos, mas frequentemente chega atrasado, depende de uma urgência que a própria situação dificulta e exige garantias que o momento não permita que sejam oferecidas”, analisa. Para ele, o que se viu em Ubá não é apenas um problema financeiro, é também institucional e gerencial. “A recuperação depende da velocidade de resposta do Estado, dos bancos, das associações empresariais e da capacidade de coordenação local.” E o Brasil, nas suas palavras, “frequentemente reage bem nas emergências, mas encontra mais dificuldade em manter investimentos preventivos de longo prazo.”
A indústria e o comércio
A assimetria entre indústria e comércio é um dos dados mais reveladores dessa crise. Enquanto cerca de 47 indústrias foram atingidas pelas enchentes, o comércio teve mais de mil negócios impactados diretamente. A concentração econômica de Ubá no setor moveleiro, que sempre foi um ativo, revelou também seu lado de risco: quando o polo para, a cidade para junto.
A Indústria de Móveis do Polo (Imop) é um exemplo do que a retomada industrial exigiu. Segundo o gerente de vendas, Alex Laud de Souza, o impacto financeiro foi estimado em R$ 35 milhões. A empresa ficou 60 dias com a produção totalmente paralisada e perdeu cerca de 90% do estoque de produto acabado, além de chapas e insumos químicos. “Recuperamos grande parte do maquinário, como furadores, seccionadoras, esquadradeira de bordo e parte do galpão que foi danificado”, conta. O apoio veio de fornecedores, que priorizaram entregas e ofereceram condições especiais, e de fabricantes parceiros do polo, que disponibilizaram máquinas para antecipar o retorno da produção.
O Sindicato Intermunicipal das Indústrias do Mobiliário de Ubá (Intersind) foi uma das primeiras entidades a se mobilizar. Ainda na fase emergencial, coordenou uma força-tarefa que reuniu 65 empresas do polo, responsáveis pela doação de mais de três mil móveis organizados em kits para recomposição básica de residências. Ao todo, 204 colaboradores das indústrias foram identificados como diretamente impactados, totalizando cerca de 450 famílias atendidas. Em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), o sindicato também articulou medidas emergenciais junto ao poder público, incluindo prorrogação de tributos e acesso a linhas de crédito com condições facilitadas.

O presidente do Intersind, Gilberto Teixeira Coelho, coordenou a mobilização do polo para apoiar trabalhadores e famílias atingidas pelas enchentes | Crédito: Divulgação
“A fase emergencial passou, mas as marcas das enchentes ainda existem em muitas empresas e famílias”, pondera o presidente do Intersind, Gilberto Teixeira Coelho. Para ele, a tragédia evidenciou o tecido humano que sustenta o polo: “O nosso maior patrimônio não são as máquinas, mas as pessoas.”
A preocupação com os clientes de fora também esteve no radar desde os primeiros dias. As empresas locais mantiveram diálogo constante com lojistas de outras regiões, sendo transparentes sobre prazos e capacidade de entrega. Segundo Gilberto, o mercado reconheceu o esforço: “O polo de Ubá construiu sua credibilidade ao longo de muitos anos, e isso fez diferença.” A reputação acumulada funcionou como um ativo invisível e, naquele momento, essencial.
Para o varejo local, a situação foi mais dura. A retomada comercial depende de consumidores que também perderam. Quando a clientela está reconstruindo a casa, o ciclo de compra de móveis não se sustenta sozinho. A Aciubá reagiu com uma série de frentes simultâneas: elaborou relatório de impacto econômico que embasou pedidos ao governo federal, articulou aproximadamente R$ 500 milhões em crédito junto ao Banco do Brasil e à Caixa e encaminhou mais de 40 ofícios com pedidos de isenção tributária, prorrogação de vencimentos e linhas de financiamento.
Duas iniciativas concretas ainda estão em andamento. O Fundo de Apoio ao Empresário e ao Comércio Local de Ubá (FAECLU), criado por lei municipal a partir de sugestão da Aciubá, está doando R$ 10 mil para 320 empresas atingidas. Já o Fundo Abrace Ubá, criado em parceria com o Ministério Público e o Centro de Referências em Vulnerabilidade e Assistência Social (Cervas), tem R$ 1 milhão disponível para empréstimo sem juros, com carência de 12 meses e 36 meses para quitação – disponível para contratação desde 1º de junho de 2026.
Para incentivar o consumo, a entidade lança a campanha ‘Ubá Reage – sua compra muda o jogo’. Serão distribuídos 500 mil cupons para comerciantes entregarem a clientes a cada compra. Cada cupom tem um QR Code que, pelo aplicativo da Aciubá, aciona uma raspadinha digital com prêmios instantâneos. Mensalmente, dois vale-compras de R$ 500 são sorteados; ao fim do ano, um vale-compras de R$ 10 mil, todos para uso em lojas participantes.
Recomeço
Entre os lojistas atingidos, o relato da empresária Lelinha Marangon, proprietária da A3 Móveis – loja com 20 anos de história em Ubá –, mostra o que a frieza dos dados não captura. Quando a água começou a transbordar do leito do rio, a primeira decisão foi evacuar. A segunda, a mais difícil, foi escolher o que salvar antes que a enchente chegasse ao primeiro pavimento. “Não teria tempo de subir com muita coisa pro segundo andar, então teria que escolher o que seria salvo”, lembra.
A estrutura da loja na Beira Rio foi levada: elétrica, hidráulica, teto em gesso, mobiliário, decoração. O que restou no primeiro pavimento foi perdido. A área, segundo Lelinha, ainda está em estado de devastação, sem previsão de recuperação pelo poder público. A decisão de mudar para um imóvel na rodovia, próximo a outras lojas de móveis, foi parte necessidade, parte estratégia. “Continuamos com nossos clientes e estamos atendendo um público que não ia até o centro de Ubá”, diz.

A empresária Lelinha, da A3 Móveis, reconstruiu o negócio apoiada em 20 anos de credibilidade com clientes e fornecedores | Crédito: Divulgação
O que sustentou a retomada não foi crédito emergencial nem obra pública. Foram os fornecedores “sempre muito solidários, cada um ajudando como podia” e a credibilidade construída em duas décadas de atendimento. Mesmo sem loja física no período mais crítico, Lelinha atendeu clientes que também tinham perdido tudo, fechou pedidos e cumpriu prazos. “Foi essa confiança que nos permitiu recomeçar”, resume.
“Talvez o maior aprendizado tenha sido perceber que o patrimônio mais valioso de uma empresa não está apenas na estrutura física ou nos produtos, e sim na credibilidade construída ao longo dos anos.”
Lelinha Marangon – proprietária da A3 Home Design
A experiência também mudou a forma como a empresária pensa a gestão do negócio. Planos de contingência, segurança das informações da empresa e fortalecimento das relações com fornecedores estratégicos passaram a fazer parte das prioridades cotidianas – não mais como prevenção improvável, mas como parte da rotina. “Depois da enchente, entendemos ainda mais a importância de estar preparado para situações que muitas vezes parecem improváveis”, diz. O conselho que ela deixa para outras lojistas é investir em relacionamentos sólidos e ter capacidade de adaptação. “Nem sempre conseguimos controlar o que acontece, mas podemos escolher como reagir e seguir em frente.”

O novo endereço da A3 Móveis, na rodovia, nasceu da necessidade mas virou estratégia, e passou a alcançar um público que antes não chegava ao centro de Ubá | Crédito: Divulgação
O que a água deixou exposto
O que a enchente revelou vai além dos danos físicos. O professor José Carlos, da FIA Business School, resume o diagnóstico estrutural de que o desenvolvimento territorial hoje não pode mais ser pensado sem gestão de risco climático. Ubá construiu um dos mais expressivos polos moveleiros do País com uma lógica de crescimento que funcionou por décadas. A tragédia de fevereiro mostrou que essa mesma concentração, sem planejamento urbano preventivo e infraestrutura adequada, transforma a força em vulnerabilidade.
Drenagem, mobilidade, logística – os problemas já existiam antes de fevereiro. “A lógica de épocas anteriores era criar polos industriais próximos a rios, áreas baixas e corredores logísticos”, explica o professor. Com as mudanças climáticas e a intensificação dos eventos extremos, boa parte da infraestrutura permaneceu baseada em parâmetros antigos de ocupação e drenagem. A enchente apenas tornou impossível ignorar o que já estava lá.

Professor José Carlos de Souza, da FIA Business School: para ele, desenvolvimento territorial não pode mais ser pensado sem gestão de risco climático | Crédito: Divulgação
* Crédito foto destaque: Envato








