Fraudes digitais avançam com IA e preocupam empresas

As fraudes digitais cresceram no sistema financeiro brasileiro e 63% dos executivos já identificaram ataques com deepfakes

Publicado em 19 de junho de 2026 | 08:14 |Por: Julia Magalhães

As fraudes digitais ganharam uma nova dimensão com o avanço da inteligência artificial. Um levantamento da BioCatch mostra que 89% dos líderes de instituições financeiras no Brasil observaram aumento nas tentativas de golpe em 2026. O índice supera os 77% registrados no ano anterior e também está acima da média global atual, de 81%.

O estudo ouviu 100 profissionais de gerência, diretoria e C-level das áreas de prevenção a fraudes, crimes financeiros, risco e compliance. Entre os participantes, 99% atuam em instituições com mais de US$ 10 milhões sob gestão, enquanto metade administra ativos superiores a US$ 1 bilhão.

Os resultados indicam que a sofisticação dos ataques tem elevado o impacto financeiro para as organizações. Mais da metade dos entrevistados (51%) afirma que suas instituições perdem acima de US$ 10 milhões por ano em decorrência de fraudes. Dentro desse grupo, 19% registram prejuízos superiores a US$ 25 milhões anuais e 3% relatam perdas acima de US$ 100 milhões.

O reflexo também chega aos consumidores. Segundo a pesquisa, 74% dos executivos afirmam que seus clientes perdem mais de US$ 5 milhões por ano em fraudes autorizadas e golpes. Já 44% apontam perdas superiores a US$ 10 milhões anuais.

Além do impacto financeiro, a velocidade dos ataques tornou-se motivo de preocupação crescente. Atualmente, 82% dos líderes brasileiros da área de prevenção a fraudes dizem estar muito preocupados com a rapidez da atividade criminosa, percentual acima da média global, de 76%.

Embora o estudo tenha sido realizado com instituições financeiras, especialistas alertam que a evolução das fraudes digitais afeta diversos segmentos da economia. No varejo, onde Pix, atendimento por WhatsApp e vendas on-line ganharam espaço nos últimos anos, golpes baseados em falsificação de identidade e engenharia social também representam riscos para empresas e consumidores.

Deepfakes avançam

A pesquisa aponta que a inteligência artificial vem ampliando o alcance de golpes já conhecidos. Nos últimos 12 meses, 63% dos executivos brasileiros identificaram ataques envolvendo deepfakes – conteúdos manipulados por inteligência artificial capazes de reproduzir vozes, imagens e comportamentos humanos –, resultado superior à média global de 50%.

Entre os exemplos mais recorrentes estão golpes realizados por chamadas telefônicas e mensagens que simulam situações de emergência familiar. Utilizando vozes geradas por inteligência artificial, criminosos imitam filhos, cônjuges ou pessoas próximas para solicitar transferências via Pix.

Outra prática observada envolve a falsificação de atendimentos bancários. Nesse modelo, criminosos reproduzem a voz de gerentes ou utilizam vídeos manipulados para convencer vítimas de que suas contas estão sob ameaça, induzindo transferências ou a instalação de softwares de acesso remoto.

Paralelamente, o País enfrenta dificuldades para barrar golpes de falsificação de identidade. A pesquisa mostra que 60% dos entrevistados consideram esse tipo de fraude muito ou extremamente difícil de identificar.

O levantamento também revela preocupação com a próxima geração de ameaças digitais. Para 90% dos profissionais ouvidos, a chamada IA Agêntica poderá se tornar a principal vulnerabilidade explorada pelo crime organizado nos próximos anos. Além disso, 83% acreditam que será extremamente difícil diferenciar ações legítimas assistidas por inteligência artificial de atividades maliciosas.

Segundo o diretor de Global Advisory da BioCatch para a América Latina, Diego Baldin, a principal mudança está na autonomia desses sistemas.

“A grande virada de chave tecnológica que estamos presenciando reside na evolução dos agentes de IA tradicionais para a chamada IA Agêntica. Enquanto um agente comum executa de forma rígida uma única tarefa programada, a IA Agêntica possui autonomia para traçar caminhos alternativos e contornar barreiras até atingir seu objetivo”, afirma.

Compartilhamento de dados

Diante desse cenário, os executivos apontam o compartilhamento de informações entre instituições como uma das principais estratégias para reduzir perdas.

A pesquisa mostra que 88% dos líderes brasileiros acreditam que o intercâmbio de inteligência entre bancos pode contribuir de forma significativa para o combate às fraudes e aos crimes financeiros. Já 89% afirmam que o acesso a informações em tempo real sobre contas destinatárias seria decisivo para impedir golpes antes da movimentação dos recursos.

O estudo também identificou diferenças entre o mercado brasileiro e o cenário internacional. Enquanto globalmente 39% dos executivos apontam a retenção de clientes como um dos fatores que motivam investimentos em prevenção a fraudes, no Brasil esse percentual cai para 23%.

Para Baldin, a prioridade das instituições brasileiras está diretamente ligada à proteção financeira e operacional diante do avanço das ameaças digitais. “A IA já está redefinindo a velocidade e a sofisticação das ameaças no Brasil, permitindo que criminosos escalem ataques de engenharia social com o uso de deepfakes em um ritmo muito superior à média global”, diz.

Segundo o executivo, o combate às fraudes exigirá mecanismos capazes de compreender comportamentos e intenções dos usuários em tempo real, além de uma rede de inteligência compartilhada para identificar contas utilizadas em esquemas criminosos.

O executivo acrescenta que a evolução da IA Agêntica exigirá uma mudança na forma como empresas e instituições monitoram comportamentos digitais e identificam tentativas de fraude.

“Quando essa tecnologia é capturada pelo crime organizado, passamos a lidar com sistemas automatizados capazes de conduzir interações complexas de engenharia social, persuadindo uma vítima até que ela esteja totalmente convencida, para só então repassar o ataque para um operador humano, que conclui o golpe”, afirma.

O levantamento reforça que a combinação entre inteligência artificial, engenharia social e transações instantâneas tem alterado rapidamente o cenário de riscos digitais, exigindo novas estratégias de proteção por parte das organizações.

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