Exportações de móveis tem queda nas vendas no 1º semestre

Exportações de móveis e colchões recuaram 6,5%, influenciados pela baixa de 42% nas vendas ao mercado americano; alta das importações chinesas gera atenção

Publicado em 10 de agosto de 2026 | 11:00 |Por: Thiago Rodrigo

O comércio exterior da cadeia moveleira brasileira encerrou o primeiro semestre de 2026 com desempenhos distintos. As exportações de móveis e colchões recuaram 6,5%, enquanto os embarques de componentes, matérias-primas, máquinas e demais suprimentos avançaram 4%, ambos em relação a igual período no ano anterior.

A diferença esteve relacionada, principalmente, ao comportamento dos Estados Unidos. No mobiliário acabado, a perda registrada no principal destino do setor superou os ganhos obtidos em outros países. Entre os suprimentos, a redução das vendas ao mercado americano foi mais moderada e pôde ser compensada pela expansão em diferentes destinos.

No fluxo inverso, as importações brasileiras de móveis e colchões cresceram 41,7%, com forte concentração de produtos chineses. O movimento reduziu o saldo comercial do segmento e ampliou a importância de acompanhar os efeitos da reorganização dos fluxos globais sobre o mercado brasileiro.

Os indicadores integram a Conjuntura de Móveis, estudo mensal desenvolvido pelo Iemi com exclusividade para a Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), a partir de informações oficiais e pesquisas setoriais.

Estados Unidos concentram retração das exportações de móveis

As exportações brasileiras de móveis e colchões somaram US$ 349,7 milhões no primeiro semestre, ante US$ 374,2 milhões no mesmo período de 2025. A redução foi de aproximadamente US$ 24,5 milhões. Somente nos Estados Unidos, porém, a perda chegou a quase US$ 44 milhões. Os embarques ao país caíram cerca de 42%, e a participação estadunidense nas exportações brasileiras do segmento diminuiu de 28,0% para 17,4%.

Excluídos os Estados Unidos, as exportações brasileiras de móveis e colchões registraram crescimento de aproximadamente 7,2%. Resultado que compensou parcialmente as perdas observadas no principal destino das exportações brasileiras, embora em magnitude insuficiente para neutralizar os impactos decorrentes da retração daquele mercado.

Esse desempenho reforça a efetividade da estratégia de diversificação conduzida pelo Projeto Brazilian Furniture, iniciativa da Abimóvel em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Por meio de inteligência comercial, promoção internacional e apoio à internacionalização, o projeto tem contribuído para ampliar a presença das empresas brasileiras no exterior, buscando mitigar a concentração geográfica das exportações, reduzir a exposição do setor a choques específicos de mercado e fortalecer sua resiliência diante de um ambiente internacional caracterizado por crescente volatilidade e barreiras comerciais.

Mesmo após a forte queda, os EUA permaneceram como o maior destino do mobiliário brasileiro. O Uruguai, segundo colocado, respondeu por 12,9% dos embarques. Para recuperar apenas o valor perdido no mercado americano, seria necessário praticamente duplicar as vendas atuais ao Uruguai ou obter expansões mais relevantes em vários países simultaneamente.

A América Latina vem, de toda forma, ganhando importância nesse processo. Além do Uruguai, Argentina, Peru, Paraguai, Colômbia e Bolívia ampliaram suas compras no semestre, favorecidos pela proximidade geográfica, pelos menores tempos logísticos e por acordos comerciais existentes.

Esses mercados, contudo, apresentam diferentes escalas, estruturas de distribuição e perfis de consumo, não sendo plenamente substituíveis. Assim, “a diversificação não consiste em substituir um grande comprador por outro, mas em construir uma carteira de destinos mais equilibrada e resiliente, ampliando oportunidades de negócios e reduzindo, de forma gradual, a exposição do setor a riscos econômicos, geopolíticos, regulatórios e tarifários concentrados em um único mercado”, reforça Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel.Exportações de móveis primeiro semestre de 2026

Baixa participação dos EUA afeta polos moveleiros no Brasil

A retração das exportações também se refletiu de forma distinta entre os principais polos moveleiros brasileiros, em razão das diferentes estratégias de inserção internacional e da composição de seus mercados de destino. Santa Catarina, líder nacional no primeiro semestre de 2025, registrou redução de 29,4% nos embarques, com sua participação nas exportações brasileiras passando de 35,5% para 26,9%. Esse desempenho está associado, em grande medida, à elevada exposição de parte das empresas catarinenses ao mercado americano, historicamente um dos principais destinos de suas exportações.

Nesse contexto, a redução dos pedidos afeta não apenas o faturamento das empresas, mas também a utilização da capacidade produtiva, a demanda por insumos, os serviços logísticos, os investimentos e a geração de empregos ao longo de toda a cadeia produtiva.

Por outro lado, estados com maior diversificação geográfica de mercados ou com maior dinamismo em outras regiões apresentaram comportamento distinto no período. O Rio Grande do Sul passou a liderar as exportações nacionais, impulsionado pelo crescimento das vendas para a América do Sul, enquanto o Paraná também ampliou seus embarques e São Paulo manteve desempenho próximo da estabilidade.

Essa dinâmica ocorre sobretudo porque a produção anteriormente destinada aos Estados Unidos não pode ser simplesmente transferida para o mercado interno ou enviada a outros países. Parte relevante das indústrias exportadoras produz sob encomenda para importadores, grandes redes ou marcas estrangeiras, seguindo dimensões, materiais, acabamentos, embalagens, certificações e exigências logísticas específicas. O redirecionamento exige – para além de questões econômicas e de comportamento de consumo – planejamento, investimento e continuidade.Exportações de móveis primeiro semestre de 2026

Suprimentos avançam com base internacional mais diversificada

Na vertical de componentes, matérias-primas, máquinas e demais fornecedores, as exportações alcançaram US$ 1,785 bilhão, alta de 4% no primeiro semestre. Os Estados Unidos continuaram como o maior mercado, embora tenham reduzido suas compras em 9,5%. Fora do destino norte-americano, os embarques de suprimentos cresceram aproximadamente 12,5%.

A maior variedade de produtos, aplicações industriais e clientes permitiu compensar com mais eficiência a retração nos EUA. Argentina, México, Paraguai, Colômbia e França estiveram entre os mercados que ampliaram as compras no período.

O resultado mostra que a presença internacional da cadeia moveleira brasileira vai além do produto acabado. Componentes, painéis, matérias-primas, ferragens, máquinas, equipamentos e tecnologias formam uma frente própria de negócios e posicionam o Brasil como fornecedor relevante para indústrias instaladas em diferentes mercados.Exportações de móveis primeiro semestre de 2026

Importações de produtos acabados crescem

Enquanto as exportações de móveis e colchões recuaram, as importações desses produtos aumentaram 41,7%. Com isso, o superávit comercial do segmento diminuiu de aproximadamente US$ 236 milhões para US$ 153,9 milhões. A China respondeu por 74,3% dessas compras e ampliou em 48,9% as vendas de móveis e colchões ao mercado brasileiro.

“A preocupação não está na importação em si, mas na velocidade do crescimento, na concentração da origem e no risco de redirecionamento comercial”, enfatiza Cândida. À medida que grandes economias elevam tarifas e controles de importação, parte da produção internacional pode buscar mercados alternativos mais acessíveis, aumentando a pressão competitiva sobre a indústria brasileira.

Nas importações de suprimentos, o avanço foi mais moderado, de 2,8%. A análise desse fluxo, porém, exige maior diferenciação: o grupo reúne tanto produtos que concorrem diretamente com a fabricação nacional quanto matérias-primas, componentes, equipamentos e tecnologias utilizados pelas próprias indústrias brasileiras.

Por essa razão, a Abimóvel defende instrumentos de defesa comercial tecnicamente direcionados, capazes de enfrentar práticas desleais sem elevar os custos dos insumos necessários à modernização e à competitividade da produção nacional. O avanço da entrada de produtos chineses e o risco de redirecionamento de mercadorias já foram apresentados pela entidade à Secretaria de Comércio Exterior do MDIC.

Importações de móveis primeiro semestre de 2026

Novas tarifas aumentam pressão para o segundo semestre

Os resultados do primeiro semestre ainda não refletem integralmente as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Uma cobrança adicional de 25% passou a valer em 22 de julho. Dois dias depois, um novo adicional de 12,5% alcançou grande parte dos produtos brasileiros.

Para diversas categorias de móveis e colchões atingidas pelas duas medidas, as sobretaxas podem chegar a 37,5%, além da tarifa regular de importação. Produtos enquadrados na Seção 232 possuem tratamento específico, o que exige análise conforme a classificação tarifária de cada mercadoria.

O impacto potencial para a indústria brasileira contrasta com sua participação reduzida no mercado americano. Embora os Estados Unidos sejam o principal destino histórico do setor, o Brasil responde por apenas cerca de 0,7% das importações de móveis do país norte-americano. A escala limitada reforça a avaliação de que o mobiliário brasileiro não representa ameaça à indústria local, mas ocupa uma posição complementar na oferta local.

Além das tarifas, o governo Trump prorrogou por mais um ano a emergência nacional declarada em relação ao Brasil. A decisão, válida ao menos até 30 de julho de 2027, não cria, por si só, novas tarifas nem altera as alíquotas atuais, mas mantém em vigor o instrumento jurídico que permite a adoção de sanções e outras medidas de pressão.importações primeiro semestre de 2026

Defesa institucional e acesso a novos mercados

Diante do cenário, a Abimóvel intensificou a interlocução com o Governo Federal. A entidade defende a continuidade das negociações diplomáticas, a revisão das tarifas, a retomada integral do Reintegra, a ampliação do crédito às exportações e o fortalecimento dos mecanismos de defesa comercial.

Paralelamente, a abertura de novos canais avança por meio do Projeto Setorial Brazilian Furniture, realizado pela Abimóvel em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

De 17 a 20 de agosto, a Movelsul Brasil, em Bento Gonçalves (RS), receberá rodadas com compradores internacionais a partir do Projeto Comprador, além de uma exposição voltada a apresentar a diversidade produtiva do mobiliário nacional. Na mesma semana, oito indústrias brasileiras de suprimentos participarão da Tecno Mueble Internacional, no México — mercado para o qual os embarques do segmento cresceram mais de 26% no semestre.

A agenda segue para a Feria de Diseño Medellín, realizada de 10 a 12 de setembro, na Colômbia, país que ampliou as compras tanto de móveis quanto de suprimentos brasileiros. Em novembro, o 13º Congresso Nacional Moveleiro, em Curitiba (PR), reunirá novas rodadas internacionais e debates sobre competitividade, inovação, varejo e inserção global. Essas ações cumprem uma função estratégica: aproximar empresas de importadores, testar mercados, formar novos canais e transformar contatos em relações comerciais.

Design brasileiro amplia valor e diferenciação

Diversificar mercados, todavia, não significa apenas ampliar o número de destinos para os mesmos produtos. Em um cenário marcado por tarifas mais elevadas, maior concorrência internacional e mudanças nos padrões de consumo, a expansão das exportações depende, cada vez mais, da capacidade de agregar valor, diferenciar produtos e fortalecer o posicionamento competitivo da indústria brasileira.

O mobiliário nacional reúne atributos reconhecidos internacionalmente, como a diversidade de matérias-primas, a qualidade do design, a inovação, a sustentabilidade e a capacidade de desenvolver soluções alinhadas às diferentes formas de viver e ocupar os espaços. Esses diferenciais permitem competir para além do fator preço e consolidar a imagem do Brasil como referência em mobiliário de valor agregado.

Nesse contexto, o Prêmio Design da Movelaria Nacional, realizado pela Abimóvel, com correalização da ApexBrasil e do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), consolida-se como um importante instrumento de valorização da indústria e do design brasileiros. Em sua segunda edição, a iniciativa registrou mais de 400 projetos inscritos, evidenciando o elevado engajamento do setor e seu potencial criativo. O Prêmio reconhece soluções que aliam brasilidade, inovação, sustentabilidade, viabilidade produtiva e potencial comercial, contribuindo para ampliar a visibilidade internacional do mobiliário brasileiro e fortalecer sua competitividade nos mercados externos.

Os finalistas da segunda edição integrarão uma mostra especial durante o Congresso Nacional Moveleiro 2026, enquanto as peças vencedoras seguirão para o Salone del Mobile.Milano 2027, durante a Semana de Design de Milão, na Itália — principal evento do calendário global do setor. A projeção amplia o acesso a compradores, arquitetos e especificadores e apresenta ao mundo não apenas produtos, mas ideias, tecnologias e soluções brasileiras num mercado em transformação.

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