Cautela no consumo, fôlego nas projeções
Confiança do consumidor cai pelo terceiro mês seguido, mas sinais de julho e a expectativa do lojista para o segundo semestre trazem fôlego ao setor de móveis
Publicado em 27 de agosto de 2026 | 08:14 |Por: Julia Magalhães

Julho confirmou uma tendência que já vinha se desenhando desde maio: o consumidor brasileiro segue mais cauteloso com o presente do que otimista com o futuro. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da Fundação Getulio Vargas (FGV) recuou 0,4 ponto no mês, para 88,3 pontos, terceiro recuo mensal seguido e o menor patamar desde março. O Índice de Situação Atual (ISA) foi o principal responsável pela queda, com recuo de 2,6 pontos, para 84,4 pontos, puxado pela piora na percepção das famílias sobre o próprio orçamento.
Até o mês passado, a deterioração da confiança vinha do lado das expectativas, enquanto a leitura do presente melhorava. Em julho, o movimento se inverteu. “Embora ainda possa refletir uma calibragem dos resultados anteriores, a virada de chave observada neste mês pode sinalizar que o pessimismo em relação ao futuro começa a influenciar a avaliação atual dos consumidores, especialmente de sua situação financeira”, avalia a economista do FGV IBRE, Anna Carolina Gouveia. Para ela, o alto endividamento e a inadimplência das famílias, somados a um cenário de juros ainda fortemente restritivo, com a Selic em 14,25% ao ano e o Copom reunindo-se na semana seguinte para decidir os próximos passos da política monetária, continuam sendo o principal ponto de pressão sobre o orçamento do consumidor. Já o Índice de Expectativas (IE) subiu 1,1 ponto, para 91,5 pontos, após dois meses de queda, um dado que, isolado, ainda não altera o quadro geral de cautela.
Varejo real fecha o pior semestre desde a pandemia
Enquanto a confiança oscila, o faturamento efetivo do comércio já mostra o resultado dessa cautela. O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) recuou 2,8% em junho ante o mesmo mês do ano passado, descontada a inflação, o pior desempenho para o período desde a pandemia e a segunda queda real consecutiva. Em termos nominais, houve expansão de 3%, com alta de 1% no comércio físico e de 9,2% no comércio eletrônico.
Entre os macrossetores acompanhados pela Cielo, bens duráveis e semiduráveis, categoria que inclui móveis, recuaram 3,4% em termos reais, atrás apenas da queda de 9,1% em serviços. “Em síntese, os números do semestre reforçam um quadro de enfraquecimento real do consumo, com perda de tração frente a qualquer semestre desde a pandemia. Isso mostra que a renda do brasileiro está pressionada pela inflação e os efeitos são sentidos pelo varejo”, diz o vice-presidente de tecnologia e negócios da Cielo, Carlos Alves. Todas as regiões do País registraram queda no mês: o Sudeste teve o pior resultado, com recuo de 4,5%, seguido por Centro-Oeste (-2,6%), Nordeste (-1,4%), Sul (-1,0%) e Norte (-0,3%).
Endividamento do consumidor dá sinal de trégua
Depois de cinco meses seguidos de alta, o percentual de famílias brasileiras com dívidas a vencer ficou estável em 81,6% em junho, o mesmo nível de maio, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O cartão de crédito segue como a modalidade mais usada pelas famílias, presente em 84,7% dos casos, seguido por carnê de loja, com 16,0%, e crédito pessoal, com 13,2%.
A estabilidade no indicador geral esconde movimentos distintos por faixa de renda: entre famílias com renda de três a cinco salários-mínimos, o endividamento avançou 0,6 ponto percentual, enquanto entre as que recebem de cinco a dez salários-mínimos houve recuo de 1,3 ponto. Já a percepção subjetiva de endividamento piorou, com a fatia que se considera muito endividada avançando de 17,0% para 17,2%, mesmo com a estabilidade do indicador objetivo. Do lado oposto, a fatia que se diz pouco endividada também cresceu, de 33,3% para 34,2%, sinal de que o aperto financeiro segue distribuído de forma desigual entre as famílias.
Varejo avança devagar, mas móveis ganham tração
O dado mais recente e oficial sobre o comportamento do varejo, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra maio como um mês de estabilidade: o volume de vendas do comércio varejista variou 0,1% ante abril, na série livre de influências sazonais, depois de uma queda de 1,6% em abril. Na comparação com maio do ano passado, a alta foi de 0,4%; no acumulado do ano, o varejo soma 1,7%.
Entre os poucos setores em alta no mês, ‘Móveis e Eletrodomésticos’ se destacou, com avanço de 2,7%, resultado que, segundo o próprio instituto, pode ter sido beneficiado pela Copa do Mundo, com a compra de televisores puxando o segmento. É um lembrete de que, para o consumidor, ‘eletro’ e ‘móvel’ nem sempre andam separados na hora da decisão de compra, e de que datas e eventos fora do calendário tradicional do setor também movem o showroom.
Enquanto os dados oficiais de julho ainda não fecharam, projeções econométricas do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) e da Fia Business School, a partir de dados dessazonalizados do IBGE, apontam alta de 4,92% no varejo ampliado em julho ante o mesmo mês de 2025, com avanço de 0,95% sobre junho. Já o varejo restrito deve crescer 0,96% na comparação anual, com leve recuo de 0,22% ante junho.
Entre os segmentos, a expansão projetada para julho é puxada pelos bens de maior valor unitário: veículos devem avançar 5,14% na comparação anual, equipamentos de informática lideram com alta de 7,66%, e móveis e eletrodomésticos aparecem na sequência, com projeção de 4,56%. “Observa-se uma economia que se expande pelos extremos, bens duráveis e veículos, enquanto o consumo cotidiano avança em ritmo mais lento”, avalia o presidente do Ibevar e professor da Fia Business School, Claudio Felisoni. Segundo ele, essa assimetria deve persistir ao longo do terceiro trimestre.
Indústria moveleira mira crescimento moderado
Para o ano fechado, o retrato do setor é de avanço moderado. Estudo do IEMI – Inteligência de Mercado, realizado em parceria com a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), projeta alta de 0,5% na produção em volume e de 2,8% em valores nominais para a indústria de móveis e colchões em 2026. O varejo do setor deve crescer 1,5% em volume de vendas e 4,5% em valores no mesmo período.
O setor moveleiro responde por 1,7% do consumo de bens no País, na nona posição do ranking nacional, atrás de segmentos como alimentação no domicílio e vestuário. Ainda assim, mantém relevância estratégica: são 22,3 mil indústrias ativas, responsáveis por cerca de 282,7 mil empregos diretos em todo o território nacional.
Emprego, renda e programas de estímulo ao consumo aparecem entre os fatores que sustentam essa projeção. Do outro lado, a inflação persistente, os juros elevados, o endividamento das famílias e a própria Copa do Mundo, realizada em julho e apontada pelo estudo como fator que tradicionalmente reduz o fluxo do varejo físico, entram na conta como freios ao avanço do setor.
O contraste com o dado de maio do IBGE, no qual ‘Móveis e Eletrodomésticos’ figuravam entre os poucos setores em alta, ilustra bem o momento: o consumidor comprou televisor para assistir ao Mundial, mas a loja de móveis sentiu o esvaziamento típico do período.

Husband flipping through. Adult positive couple enjoying process of choosing furniture while sitting on the sofa in store
Aposta no segundo semestre
Se o primeiro semestre foi de resultados mistos, o varejo entra na segunda metade do ano com expectativa de melhora. Levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Minas Gerais (Fecomércio-MG), com 416 empresas de diferentes portes e regiões, mostra que 70,2% dos varejistas mineiros esperam vender mais entre julho e dezembro do que venderam no primeiro semestre, percentual um pouco mais moderado que os 74,7% registrados na mesma pesquisa em 2025.
No balanço do semestre que passou, 60,6% das empresas afirmaram ter alcançado as expectativas de vendas, mas apenas 24,8% registraram alta na comparação com o mesmo período de 2025 – retrato de um comércio que manteve as contas em dia, ainda que o ganho real tenha ficado concentrado em parte dos negócios.
“Historicamente, o segundo semestre concentra fatores que ampliam a circulação de recursos na economia, como o pagamento do 13º salário, a restituição do imposto de renda e também a redução de despesas típicas do início do ano. Isso aumenta a capacidade de consumo das famílias e favorece de maneira direta o comércio varejista”, explica a economista da Fecomércio-MG, Gabriela Martins. No primeiro semestre, a cautela do consumidor foi apontada por 31,7% dos entrevistados como o principal fator que limitou as vendas, à frente do endividamento e da inflação.
No detalhe, a venda se decide
Postos lado a lado, os indicadores de julho desenham um caminho conhecido para quem vende móveis. O crescimento nominal do faturamento, aquele que aparece no caixa, ainda convive com perda real de poder de compra, e o comércio eletrônico segue crescendo em ritmo bem mais acelerado que a loja física, mesmo em categorias que dependem de ambientação e experimentação. O crédito ao consumidor continua sendo o fator que decide o tíquete mais alto: comunicar com clareza as condições de parcelamento tende a pesar tanto quanto o preço do produto em si.
Ainda assim, bens de maior valor seguem vendendo quando o vendedor consegue deixar claro, na cabeça do consumidor, por que aquele investimento vale a pena – o que depende menos do produto em si e mais de um atendimento consultivo capaz de traduzir preço em benefício e valor em experiência.
Nesse cenário, a expectativa do lojista para o segundo semestre é de melhora. A confiança pode variar mês a mês, mas a decisão de compra, cada vez mais, é tomada no detalhe – na condição de pagamento, na composição do ambiente e na clareza do que aquele produto resolve para quem está do outro lado do balcão.







