Confiança de consumidores perde a força

Indicadores de agosto mostram piora nas expectativas de consumidores e comerciantes, enquanto intenção de compra de bens duráveis atinge o menor nível desde 2022

Publicado em 16 de setembro de 2026 | 08:30 |Por: Julia Magalhães

Agosto aprofundou a perda de confiança do consumidor brasileiro e trouxe um sinal especialmente relevante para o varejo de móveis. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) do FGV IBRE caiu 3,6 pontos, para 84,7 pontos, no quarto recuo mensal consecutivo e no menor nível desde novembro de 2022.

Dentro do indicador, a intenção de compra de bens duráveis registrou a variação mais intensa. O índice caiu dez pontos, para 74,7 pontos, patamar que não era observado desde julho de 2022. Para uma categoria em que a decisão envolve valor mais alto, planejamento e, muitas vezes, parcelamento, o movimento merece atenção porque ocorre justamente na disposição futura de consumo.

A piora não ficou restrita a esse componente. O Índice de Expectativas recuou 5,4 pontos, para 86,1 pontos, enquanto a percepção sobre a situação atual perdeu 0,6 ponto, chegando a 83,8 pontos. Também caiu a avaliação sobre a situação financeira futura das famílias, que passou a 82,9 pontos.

Segundo a economista do FGV IBRE, Anna Carolina Gouveia, a sequência de quedas reflete uma deterioração tanto das expectativas quanto da percepção sobre o momento presente. O quadro financeiro das famílias aparece como uma das principais pressões. “A queda da confiança nos últimos meses parece sinalizar uma desaceleração do consumo das famílias para o segundo semestre deste ano, a despeito da manutenção de um forte mercado de trabalho”, afirma.

Para o lojista de móveis, a combinação desses indicadores sugere um consumidor mais criterioso diante de compras que comprometem parcela maior do orçamento. Condições de pagamento, adequação do produto à necessidade e clareza na apresentação da proposta comercial tendem a pesar ainda mais quando a percepção sobre a situação financeira piora.

Do outro lado do balcão, o comércio também terminou agosto menos confiante. O Índice de Confiança do Comércio (ICOM) cedeu 1,3 ponto, para 84,2 pontos, interrompendo dois meses de alta. A principal pressão veio das expectativas para os meses seguintes, enquanto a avaliação sobre a situação atual apresentou leve melhora.

O Índice de Expectativas do Comércio caiu 2,7 pontos, para 83,8 pontos, e o indicador de vendas previstas chegou a 85,6 pontos, menor nível desde outubro de 2025. Já o Índice de Situação Atual avançou 0,3 ponto, para 85,5 pontos. Dentro dele, a percepção sobre a situação atual dos negócios subiu cinco pontos, enquanto o volume de demanda atual recuou 4,4 pontos, para 82,6 pontos, menor patamar desde junho de 2020.

Para o superintendente adjunto do FGV IBRE, Rodolpho Tobler, a leitura negativa veio principalmente das expectativas. “A queda da confiança do comércio em agosto foi influenciada pela piora com as expectativas em relação aos próximos meses e disseminada entre os principais segmentos do setor”, comenta.

Essa diferença entre a leitura do presente e as expectativas ajuda a entender o momento do varejo. As empresas ainda percebem alguma sustentação na operação corrente, mas demonstram menor confiança na continuidade desse desempenho nos próximos meses. Para o lojista de móveis, acompanhar giro, resposta do consumidor e ritmo das vendas com maior frequência tende a ser mais importante do que projetar o restante do ano apenas com base no comportamento recente.

Incerteza no horizonte

O ambiente econômico também passou a incorporar maior incerteza. O Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) subiu 2,3 pontos em agosto, para 111,7 pontos, depois da queda registrada em julho. O avanço veio exclusivamente do componente de mídia, que cresceu 2,8 pontos. Já o componente de expectativas, que mede a dispersão das previsões de especialistas para variáveis macroeconômicas, recuou 0,8 ponto.

Segundo Anna Carolina, a proximidade das eleições ampliou a presença de temas relacionados às contas públicas e às propostas de política econômica no debate. A economista também cita os possíveis efeitos do El Niño, do conflito no Oriente Médio e as dúvidas sobre a trajetória da taxa de juros no Brasil. Com isso, o indicador retornou a um nível considerado moderadamente elevado pela FGV.

Para o varejo, o aumento da incerteza adiciona uma variável ao planejamento dos próximos meses. Em compras de maior valor, como móveis e outros bens duráveis, confiança e percepção sobre a própria situação financeira influenciam a disposição do consumidor para assumir novos compromissos. O recuo de dez pontos na intenção de compra desta categoria mostra que esse comportamento merece acompanhamento próximo no segundo semestre.

A perda de confiança também apareceu entre as empresas. O Índice de Confiança Empresarial (ICE) caiu 0,5 ponto em agosto, para 91,1 pontos, no segundo mês seguido de retração. Na média móvel trimestral, o indicador entrou em tendência declinante pela primeira vez desde novembro de 2025.

O movimento foi mais intenso na indústria, cuja confiança recuou 3,5 pontos. De acordo com o pesquisador do FGV IBRE Aloisio Campelo Jr., pesaram a percepção de enfraquecimento da demanda, o acúmulo de estoques e as incertezas associadas às tarifas norte-americanas e às eleições nacionais. Para ele, o quadro “sugere uma preocupação crescente do empresariado com o risco de uma desaceleração da atividade no segundo semestre”.

Os dados empresariais mostram, contudo, comportamentos diferentes conforme o horizonte analisado. O indicador que mede o otimismo com a demanda nos três meses seguintes avançou 0,5 ponto, para 88 pontos. Já as expectativas em relação à evolução dos negócios seis meses à frente recuaram 0,8 ponto, para 92,8 pontos. O curto prazo, portanto, apresentou sinal um pouco menos desfavorável que a visão para um período mais distante.

Reunidos, os indicadores de agosto mostram consumidores, comerciantes e empresários menos confiantes, embora por razões e intensidades diferentes. Para o varejo moveleiro, o sinal mais diretamente ligado à categoria está na forte queda da intenção de compra de bens duráveis, acompanhada pela piora na percepção financeira das famílias e por expectativas mais fracas no comércio.

Nesse ambiente, decisões de estoque, mix, crédito e abordagem comercial pedem atenção ao comportamento efetivo da demanda. A compra de bens duráveis continua sujeita a uma avaliação mais cuidadosa do orçamento, o que aumenta a importância de compreender as condições que pesam sobre a decisão do consumidor e acompanhar de perto o ritmo das vendas nos próximos meses.

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