Ataques cibernéticos ganham escala com uso de IA no Brasil

Os ataques cibernéticos usam a inteligência artificial para ampliar fraudes e phishing; Brasil teve 3,45% dos incidentes relatados em análise da Trellix

Publicado em 18 de setembro de 2026 | 07:50 |Por: Julia Magalhães

Os ataques cibernéticos estão ganhando novas formas de execução com o avanço da inteligência artificial (IA), enquanto o Brasil aparece entre os países com maior participação em incidentes relatados publicamente em análise divulgada pela Trellix. Entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, o País respondeu por 3,45% desses registros.

O percentual colocou o Brasil na terceira posição dessa análise, atrás dos Estados Unidos, com 6,8%, e da Índia, com 5,27%. Os dados integram o mais recente Relatório de Ameaças Cibernéticas da Trellix e acompanham um cenário marcado pelo uso de IA, roubo de identidade e uso indevido de serviços digitais confiáveis.

No Brasil, uma das frentes observadas envolve o Pix. Segundo a análise da Trellix, o sistema tem atraído a atenção de cibercriminosos, que combinam engenharia social, phishing e roubo de credenciais para realizar fraudes financeiras.

A IA acrescenta outra camada a essas operações. A tecnologia pode ser utilizada para produzir mensagens mais convincentes e automatizar diferentes etapas das campanhas criminosas, aumentando sua escala e sofisticação. “As organizações precisam ir além da detecção tradicional e concentrar seus esforços em uma segurança baseada em comportamento e identidade”, afirma o country manager da Trellix no Brasil, Rodrigo Buosi.

Credenciais em risco

O roubo de credenciais continua entre os principais vetores de comprometimento observados no País, conforme a análise apresentada pela Trellix.

As técnicas identificadas incluem a coleta de informações armazenadas localmente, como arquivos e credenciais salvas nos dispositivos. Também aparecem o keylogging, que registra as teclas digitadas pelo usuário, e a exfiltração de dados por canais de comando e controle.

Outra estratégia é a ofuscação de comandos, utilizada para dificultar a identificação de ações maliciosas. O relatório também chama a atenção para o emprego de ferramentas legítimas de administração já disponíveis nos sistemas operacionais. Em atividades relacionadas a ameaças persistentes avançadas, o PowerShell apareceu em 49,6% das detecções analisadas, enquanto o Prompt de Comando do Windows esteve presente em 48,9%.

Ao recorrer a ferramentas comuns nos ambientes corporativos, os agentes de ameaça podem misturar ações maliciosas às operações legítimas das redes. Como consequência, a identificação dessas atividades pelas equipes de segurança torna-se mais complexa.

No cenário brasileiro, a Trellix aponta a necessidade de estratégias capazes de identificar comportamentos suspeitos, reduzindo a dependência exclusiva de assinaturas associadas a malwares já conhecidos.

IA amplia ameaças

A inteligência artificial também aparece no relatório como um fator de transformação do cibercrime. De acordo com a Trellix, agentes de ameaça estão incorporando a tecnologia para automatizar e modificar códigos maliciosos continuamente.

Em vez de depender apenas de malwares estáticos, invasores podem adaptar campanhas com maior rapidez. Além disso, a IA permite personalizar ações de phishing e automatizar etapas dos ataques. Esse movimento reduz o tempo necessário para desenvolver novas técnicas e pode tornar as campanhas mais resistentes aos métodos tradicionais de detecção.

Outro estudo da empresa, intitulado ‘Inteligência Artificial como Arma: A Mercantilização do Cibercrime’, aponta ainda uma redução das barreiras para a execução de crimes cibernéticos sofisticados. Tarefas que anteriormente exigiam operadores experientes e diferentes ferramentas podem ser incorporadas a fluxos de trabalho automatizados.

Para as equipes responsáveis pela defesa dos ambientes corporativos, a Trellix indica a combinação de inteligência de ameaças, detecção comportamental e controles capazes de identificar atividades anômalas conforme os ataques evoluem.

Ataques no Brasil

Os dados da Trellix também mostram diferenças na distribuição das detecções entre setores brasileiros no primeiro trimestre de 2026. O governo concentrou 39% dos registros da empresa no período. Na sequência aparecem telecomunicações, com 33%, e instituições financeiras, com 16%. Educação e serviços empresariais responderam por 6% cada.

Além das técnicas utilizadas nos ataques cibernéticos, o relatório identifica mudanças na infraestrutura empregada pelos criminosos. Entre elas está o uso indevido de serviços digitais legítimos para ocultar atividades maliciosas.

Em vez de utilizar somente estruturas controladas pelos próprios invasores, os agentes podem recorrer a serviços confiáveis em nuvem, plataformas de colaboração e tecnologias de blockchain para disfarçar comunicações com dispositivos comprometidos.

Esse cenário ganha relevância à medida que empresas ampliam suas operações digitais e o uso de serviços em nuvem. O tráfego malicioso pode, assim, tornar-se mais difícil de distinguir das atividades corporativas legítimas.

Segurança das organizações

Diante desse cenário, a Trellix aponta estratégias como inteligência operacional de ameaças, Zero Trust, proteção de identidades e monitoramento contínuo de vulnerabilidades entre as medidas que devem ganhar relevância na defesa das organizações.

A adoção de agentes de IA pelas próprias empresas acrescenta outro aspecto à segurança. Segundo a análise, as organizações precisam compreender como esses agentes operam e quais recursos podem acessar. A recomendação apresentada no material é que cada agente tenha uma identidade única, acesso controlado e um mecanismo de desativação. O objetivo é reduzir a possibilidade de um agente comprometido afetar outras partes do ambiente.

Com o avanço simultâneo da digitalização das empresas e das ferramentas disponíveis aos criminosos, os ataques cibernéticos passam a exigir atenção não somente ao tipo de malware utilizado, mas também ao comportamento dentro das redes, à proteção das identidades e ao controle dos acessos.

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