Produção de móveis recua no 1º semestre de 2026
Produção de móveis do setor caiu 1,6%, enquanto faturamento cresceu 3,6%; varejo, emprego e exportações também perderam fôlego
Publicado em 25 de setembro de 2026 | 08:00 |Por: Thiago Rodrigo

A indústria brasileira de móveis e colchões chegou ao fim do primeiro semestre de 2026 produzindo menos, embora tenha conseguido ampliar a receita. Entre janeiro e junho, o volume fabricado recuou 1,6% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o faturamento industrial avançou 3,6%. O descompasso mostra que o crescimento em receita não correspondeu a uma expansão física da atividade, refletindo, potencialmente, uma combinação de preços, custos e composição de portfólio.
Junho trouxe uma reação pontual. A produção alcançou 35,9 milhões de peças, alta de 0,8% sobre maio. A receita chegou a R$ 8,3 bilhões, com crescimento de 2,9% na mesma comparação. Em 12 meses, contudo, o setor ainda acumula queda de 2,8% no volume produzido, enquanto a receita registra alta de 3,0%.
Indústria de transformação
O comportamento da indústria moveleira contrasta com o resultado agregado da indústria de transformação. Enquanto a produção do setor de transformação recuou 2,0% na passagem de maio para junho, móveis e colchões avançaram 0,8%. No acumulado do semestre, porém, ocorreu o inverso: a transformação cresceu 0,4%, ao passo que a produção moveleira caiu 1,6%.
O resultado de junho, portanto, representa mais uma acomodação positiva após meses de oscilação do que uma retomada para o setor de móveis. Depois de iniciar o ano em nível mais baixo, a produção saltou em março, mas não conseguiu se manter no patamar nos meses seguintes.
Essa trajetória revela uma indústria calibrando produção, estoques e capacidade diante de um mercado doméstico seletivo e de um ambiente externo cada vez menos previsível.
Consumo cresce no mês, mas varejo vende menos
O consumo aparente de móveis e colchões — indicador que estima o volume de produtos disponibilizado ao mercado interno, considerando produção, importações e exportações — chegou a 36,6 milhões de peças em junho, alta de 2,6% sobre maio. Mesmo assim, acumulou queda de 1,0% no primeiro semestre. Em 12 meses, apresentou variação positiva de apenas 0,2%.
O avanço mensal do consumo aparente, superior ao da produção, não se traduziu diretamente em vendas mais fortes na ponta. Em junho, o varejo de móveis registrou queda de 8,0% no volume comercializado em relação a maio. Em valores, o recuo foi de 7,6%. No acumulado de janeiro a junho, as vendas varejistas caíram 2,4% em número de peças, enquanto a receita apresentou estabilidade, com leve alta de 0,1%. Em 12 meses, houve retração de 3,7% no volume e de 0,9% nos valores.
Na prática, o consumidor brasileiro comprou menos móveis, embora o faturamento tenha se mantido próximo ao do ano anterior. O comportamento é compatível com um mercado no qual as famílias continuam priorizando despesas essenciais, pesquisando mais e adiando compras de bens duráveis, como móveis. Mesmo após sucessivas reduções, a Selic (taxa de juros básica do país) chegou a agosto em 14% ao ano, patamar ainda restritivo para o consumo e para o investimento produtivo.
– Produção de móveis alcança alta em maio
As vendas, em volume, do varejo de Móveis e Colchões, em junho, foram estimadas em 34,0 milhões de peças, o que representa uma queda de 8,0% em comparação com o mês anterior. A inflação do mobiliário permaneceu relativamente controlada. Em junho, os preços subiram 0,23%, acumulando alta de 1,38% no ano e de 3,90% em 12 meses. Em julho, houve deflação de 0,53%. Com isso, a variação acumulada em 2026 diminuiu para 0,84%, enquanto o indicador em 12 meses desacelerou para 2,59%.
A estabilidade dos preços ajuda a preservar parte do poder de compra, mas não é suficiente para destravar a demanda quando crédito, prestações e orçamento doméstico continuam pressionados. A diferença entre a queda do volume vendido e a estabilidade da receita também sugere que preço e composição do mix sustentaram os valores, sem gerar aumento efetivo das quantidades comercializadas.
Para o segundo semestre, datas promocionais, como Black Friday e Natal, podem estimular o varejo. A intensidade dessa reação, contudo, dependerá também dos fatores sistêmicos mencionados, a se observar evolução dos juros, da renda, do emprego e das condições oferecidas ao consumidor.
Emprego e investimentos refletem cautela
A fragilidade da recuperação aparece também nos indicadores do chão de fábrica. O emprego na indústria de móveis recuou 0,4% em junho frente a maio e acumulou queda de 0,7% no primeiro semestre. Em 12 meses, a retração chegou a 3,3%. Na indústria de transformação como um todo, o emprego cresceu 0,3% em junho e 1,2% no semestre, ampliando a diferença em relação ao desempenho moveleiro.
O número de horas trabalhadas no setor de móveis caiu 0,5% em junho, permaneceu estável no acumulado de janeiro a junho e aumentou 3,6% em 12 meses. A combinação entre menos empregos, produção física menor e jornadas ainda elevadas reforça a necessidade de acompanhar produtividade, utilização da capacidade instalada e custos operacionais.
A cautela também chegou aos investimentos. As importações de máquinas destinadas à fabricação de móveis diminuíram 13,2% no primeiro semestre frente ao mesmo intervalo de 2025. De janeiro a julho, a queda se aprofundou para 16,8%.
Entre os segmentos mais afetados estão as máquinas-ferramenta para madeira, com recuo de 45,1%, e as máquinas utilizadas para arquear ou reunir, com retração de 42,2%. O movimento indica maior seletividade na aprovação de projetos de modernização, expansão e aumento da capacidade produtiva.
A postergação de investimentos preserva caixa no curto prazo, mas exige atenção. Em uma indústria na qual produtividade, precisão, acabamento, personalização e escala dependem de atualização tecnológica, um período prolongado de retração pode afetar a competitividade futura.
Exportações recuam e julho amplia sinal de alerta
No comércio exterior, a perda de ritmo foi mais evidente. Entre janeiro e junho, as exportações de móveis e colchões brasileiros alcançaram US$ 349,7 milhões, queda de 6,5% em relação ao registrado no mesmo período de 2025. Em julho, houve novo recuo mensal, de 4,6%, para US$ 61,9 milhões no mês, com acúmulo de -7,1% no ano.
A retração na entrada do segundo semestre prolonga a trajetória negativa, mas ainda não incorpora integralmente os efeitos das novas tarifas dos Estados Unidos, que entraram em vigor apenas na última parte do mês. Os dados dos próximos períodos serão mais representativos para mensurar o impacto completo das medidas sobre pedidos, preços, margens e embarques.
No Canadá, outra barreira entrou em vigor em 31 de julho. O país aplicou uma salvaguarda provisória de 25% sobre determinados armários, gabinetes de madeira e subcomponentes. A medida, que pode permanecer válida por até 200 dias, alcança os produtos brasileiros enquadrados em uma série de códigos tarifários.
O principal fator de pressão no primeiro semestre já havia sido o mercado norte-americano. As vendas de móveis e colchões aos EUA caíram cerca de 42%, representando uma perda próxima de US$ 44 milhões. A participação do país nas exportações do setor diminuiu de 28,0% para 17,4%. Excluídos os Estados Unidos, porém, as exportações brasileiras cresceram aproximadamente 7,2% no semestre.
Importações crescem e China amplia participação
Enquanto as exportações perderam ritmo, as importações avançaram. No primeiro semestre, a atividade somou aproximadamente US$ 195,8 milhões, alta de 41,7% frente ao mesmo período de 2025. Como consequência, o superávit comercial do segmento diminuiu de cerca de US$ 236 milhões para US$ 153,9 milhões.
Em julho houve novo aumento mensal: +18,3% sobre junho. A participação dos móveis e colchões importados no consumo aparente chegou a 7,4%.
Na avaliação da Abimóvel, a preocupação não está na importação em si, mas na velocidade do crescimento, na concentração em uma única origem, a China, e no risco de redirecionamento de mercadorias. Quando grandes economias elevam tarifas e criam barreiras, parte da produção internacional pode buscar mercados alternativos, aumentando a pressão sobre países com acesso relativamente mais aberto, como o Brasil.
O cenário exige monitoramento permanente e instrumentos de defesa comercial capazes de enfrentar práticas desleais, subfaturamento ou distorções competitivas. Ao mesmo tempo, eventuais respostas precisam ser tecnicamente direcionadas, evitando elevar o custo de matérias-primas, componentes, máquinas e tecnologias utilizados pela própria indústria brasileira, como é o caso da Lei de Reciprocidade possivelmente aplicada pelo Brasil aos Estados Unidos.
Recuperação exige esforços integrados
Para a entidade moveleira, que representa a indústria nacional, os números do semestre descrevem uma indústria com capacidade produtiva, escala e potencial de reação, mas submetida a pressões simultâneas. A recuperação, portanto, não depende apenas de ajustes dentro das empresas. Ela exige políticas públicas que preservem a competitividade da produção e do varejo nacionais, ampliem o acesso ao crédito, ofereçam previsibilidade regulatória, estimulem investimentos e fortaleçam os instrumentos de financiamento às exportações. É essa combinação que determinará se a reação observada em junho poderá se transformar em uma retomada mais consistente ao longo do segundo semestre.







