Entrevista: Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel
Cândida Cervieri conta em entrevista no eMóbile e na Móbile Fornecedores as ações da entidade para promoção do móvel brasileiro no País e no mundo
Publicado em 14 de outubro de 2026 | 16:15 |Por: Thiago Rodrigo

O Brasil é o maior produtor de móveis da América Latina e o sétimo maior do mundo. Temos uma cadeia formada por aproximadamente 22,8 mil empresas, responsável por 287,2 mil empregos diretos e cerca de 1,1 milhão de postos indiretos. “Transformar essa escala produtiva em presença global significa ampliar mercados, gerar demanda, estimular investimentos e reduzir a dependência das oscilações do consumo interno”, aponta Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel.
Em 2025, as exportações brasileiras de móveis e colchões alcançaram US$ 769,3 milhões. “É um resultado relevante, mas ainda consideravelmente aquém da capacidade da indústria nacional e do comércio mundial, representando apenas 0,5% das exportações globais”, aponta Cândida. O resultado demonstra a cultura exportadora já construída, mas também o espaço para uma inserção mais compatível com a dimensão e a diversidade do setor moveleiro nacional.
A internacionalização do mobiliário brasileiro é só uma das diversas frente que a Abimóvel trabalha para alavancar o produto nacional no Brasil e no mundo. Nesta entrevista – leia outra parte dela na edição 360 da Móbile Fornecedores –, a diretora da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário conta mais sobre como a entidade atua para potencializar o móvel brasileiro.
Móbile Fornecedores | A Abimóvel, junto com a ApexBrasil, tem a estratégia de posicionamento internacional, promoção comercial e valorização do design brasileiro de móveis. Por que isso é importante para alavancar o setor nacional?
Cândida | A Abimóvel atua por meio do Projeto Setorial Brazilian Furniture, realizado em parceria com a ApexBrasil, promovendo a internacionalização da indústria brasileira por meio de exposições em grandes feiras, inteligência de mercado, missões comerciais, rodadas de negócios, promoção de imagem, sustentabilidade e integração entre design e indústria. Essa atuação apoia empresas e profissionais na compreensão dos mercados, na adequação de portfólios, na formação de preços, na qualificação da comunicação e na construção de relações comerciais duradouras. Ao projetar internacionalmente um mobiliário que combina identidade brasileira e competência industrial, ampliamos a capacidade de competir não apenas por preço, mas por autoria, diferenciação, desempenho e soluções originais. A atuação do Brazilian Furniture contempla, ainda, não apenas a vertical de Móveis, mas também a de Componentes, Máquinas e Demais Fornecedores, representando a cadeia de forma integrada. Dessa maneira, apresentamos o Brasil como um parceiro capaz de oferecer soluções em toda a estrutura produtiva – dos insumos, componentes e tecnologias ao produto –, ampliando oportunidades de negócios e fortalecendo o posicionamento internacional da indústria moveleira brasileira.
Fornecedores | A Abimóvel tem atuado nos últimos anos com diversas ações em prol do desenvolvimento e do crescimento do setor moveleiro. Poderia enumerá-las?
Cândida | A atuação da Abimóvel percorre diferentes dimensões, porque a competitividade se constrói pela articulação entre ambiente de negócios, desenvolvimento empresarial, inovação, acesso a mercados e representação institucional. As frentes abaixo representam algumas das ações desenvolvidas pela entidade, tendo como horizonte o fortalecimento da indústria brasileira, a geração de emprego e renda, bem como o desenvolvimento do setor de Norte a Sul do País:
– Representação e defesa institucional e comercial do setor: diálogo permanente com o Governo Federal, Congresso Nacional, ministérios, agências e entidades públicas e privadas sobre política industrial, inclusão do mobiliário em programas habitacionais (como o Minha Casa, Minha Vida), redução do Custo Brasil, tributação, crédito, financiamento, comércio exterior e melhoria do ambiente de negócios. Integra essa atuação a defesa dos interesses da indústria brasileira diante de medidas tarifárias, barreiras comerciais e mudanças nas regras de acesso aos mercados internacionais, com acompanhamento de seus impactos e articulação institucional para preservar a competitividade e assegurar condições equilibradas para a produção nacional. Também fazem parte dessa frente a defesa comercial e a negociação de acordos internacionais.
– Inteligência setorial e comercial: produção e disponibilização de estudos, como a Conjuntura de Móveis e o Anuário Brasil Móveis, além de guias, relatórios sobre o comércio global e análises de oportunidades em mercados estratégicos, oferecendo referências para planejamento, investimento, precificação e internacionalização.
– Internacionalização por meio do Brazilian Furniture: participação em feiras internacionais, missões comerciais e prospectivas, Projetos Comprador, promoção de imagem e relacionamento com importadores, distribuidores, especificadores, arquitetos e formadores de opinião, com busca permanente de novos mercados e oportunidades de negócios, ampliando a presença e a diversificação internacional da indústria brasileira.
– Design, inovação e desenvolvimento de produtos: realização do Design + Indústria e do Prêmio Design da Movelaria Nacional, aproximando fabricantes, designers, estúdios, arquitetos, universidades e novos talentos para incorporar o design à estratégia empresarial, da concepção à comercialização.
– Fortalecimento das micro e pequenas empresas: por meio do PDCIMob, desenvolvido com o Sebrae, atuação em inteligência setorial e digital, competitividade, desenvolvimento de produtos, aproximação comercial, sustentabilidade e integração regional, considerando a relevância dos pequenos negócios para a base produtiva do setor.
– Sustentabilidade e agenda ESG: o Programa de Sustentabilidade da Indústria do Mobiliário, o SIMB, chegou à quinta edição em 2026 com nova plataforma, estrutura de certificação, métricas setoriais e ferramenta para quantificação das emissões de gases de efeito estufa, transformando compromissos ambientais e sociais em processos e indicadores verificáveis.
– Normalização, certificação e adequação fabril: orientação sobre normas nacionais e internacionais, segurança de máquinas e equipamentos, requisitos de conformidade, certificações e exigências regulatórias que impactam a produção e o acesso aos mercados.
– Formação, integração e circulação de conhecimento: promoção do Congresso Nacional Moveleiro, encontros empresariais, capacitações, seminários, publicações e articulações com sindicatos, federações e polos produtivos.
Essas são algumas das ações que integram a atuação da Abimóvel e que, de forma complementar, conectam representação institucional, competitividade, desenvolvimento empresarial, inovação, geração de negócios e presença internacional, contribuindo para o fortalecimento e a projeção da indústria brasileira de móveis.
Fornecedores | A Abimóvel promove ações como o Prêmio Design da Movelaria Nacional. Quais foram os resultados da primeira edição?
Cândida | O Prêmio Design da Movelaria Nacional, agora em sua segunda edição, é uma realização da Abimóvel, com apoio da ApexBrasil e do Sebrae Nacional. A primeira edição confirmou a diversidade técnica, material, criativa e industrial do ecossistema moveleiro brasileiro. Recebemos cerca de 500 projetos de grandes e pequenas indústrias, profissionais reconhecidos e novos talentos, marcenarias, estúdios, ateliês e estudantes de diferentes regiões do País. Desse conjunto, 56 projetos avançaram para a avaliação presencial. Ao final, foram premiadas 18 criações, entre peças e linhas de produtos, além de três reconhecimentos especiais. A seleção contemplou diferentes escalas e modos de produzir, da fabricação seriada e do trabalho artesanal até o design emergencial.
As mais de 50 peças finalistas integraram uma mostra no Campus da Indústria da FIEP, em Curitiba (PR), durante o 12º Congresso Nacional Moveleiro, reunindo empresários, compradores, varejistas, arquitetos, designers, imprensa, instituições e lideranças públicas. No palco do Congresso, foram anunciados os vencedores que, posteriormente, tiveram a oportunidade de apresentar seus trabalhos no Espaço Brasil, no Salone del Mobile.Milano 2026, em Milão, ampliando a visibilidade do design brasileiro diante de um público internacional. O evento recebeu mais de 316 mil visitantes de 167 países.
Essa mesma trajetória já vem sendo construída pelos mais de 400 inscritos na segunda edição do Prêmio, com participantes de todas as regiões do Brasil. Neste momento, a iniciativa encontra-se na fase de avaliação virtual, com os finalistas previstos para serem apresentados no início de setembro, dando continuidade a essa importante jornada de valorização, reconhecimento e projeção do design brasileiro.
Fornecedores | O que farão de diferente e o que esperam para a segunda edição? Quais são os benefícios da criação dessa ação e da exposição dos produtos desenvolvidos?
Cândida | A 2ª edição representa um amadurecimento da estrutura iniciada em 2025. Aprimoramos as categorias para ampliar a leitura sobre a indústria contemporânea e contemplar diferentes escalas, modos de produção e demandas de mercado, incluindo: Fabricação Seriada, Produção Artesanal, Bioeconomia, Excelência Fabril, Inovação no Design de Mobiliário, Mobiliário Corporativo e Potencial Criativo. O regulamento também prevê distinções especiais para contribuições que atravessam essas áreas, como Identidade Brasileira, Relevância Cultural e Revelação.
Mantivemos a avaliação em duas etapas por entendermos que o rigor é parte fundamental do Prêmio. A análise virtual e anônima preserva a imparcialidade da seleção inicial. Já o julgamento presencial, com produtos ou protótipos em escala real, permite verificar o que as imagens não revelam integralmente: estabilidade, conforto, ergonomia, acabamento, resistência, qualidade construtiva, relação com o corpo e viabilidade produtiva.
Com esse formato, buscamos identificar projetos que conciliam criatividade, autoria, identidade regional, além de viabilidade econômica e produtiva. O Prêmio reconhece iniciativas capazes de gerar impacto positivo para a indústria e para a sociedade, demonstrando que inovação, sustentabilidade, funcionalidade e qualidade são atributos concretos que fortalecem a competitividade e o posicionamento do mobiliário brasileiro. Uma boa ideia precisa se sustentar na matéria, no uso, na produção, na inserção comercial e, inclusive, em seu ciclo de vida. Mais do que transformar matéria-prima em um produto sofisticado, o design estabelece conexões entre criatividade e indústria, entre tecnologia e cultura, entre produção e mercado, entre pessoas e espaços, valorizando também a identidade e os saberes de cada região do Brasil. É esse elo que aproxima expressão criativa, autoria, conhecimento técnico, responsabilidade socioambiental e visão empresarial, gerando valor, diferenciação e destaque para o mobiliário brasileiro.
O benefício, portanto, vai além do troféu. A iniciativa confere reconhecimento e chancela de qualidade, estimula o aprimoramento dos produtos e amplia a cultura de proteção autoral e intelectual, fortalecendo o design como elemento de diferenciação e valorização. Ao serem expostas, as criações ganham visibilidade e entram em contato com profissionais, empresas e agentes capazes de conectá-las a novos projetos, parcerias e oportunidades de mercado.
Esse movimento ganha escala internacional no Salone del Mobile.Milano 2027. Ao levar os vencedores à maior vitrine do design global, colocamos produtos, marcas e assinaturas brasileiras no centro das discussões que orientam o mobiliário contemporâneo e em contato com compradores, especificadores, distribuidores, curadores e imprensa de diferentes mercados. Milão não representa apenas o destino da premiação, mas a abertura de novas possibilidades de circulação, posicionamento e negócios.
Nossa expectativa é transformar o reconhecimento conquistado no Brasil em maior valorização e projeção dos designers brasileiros, ampliando o valor percebido das empresas e dos profissionais e levando ao mundo a capacidade criativa, autoral, material, técnica e industrial do mobiliário brasileiro.
Fornecedores | Quais resultados o Programa Design + Indústria proporcionou às empresas e marcenarias participantes?
Cândida | O principal resultado do Design + Indústria é inserir o design na lógica empresarial e produtiva. Para além de promover o encontro entre uma fábrica e um profissional criativo, o programa cria um ambiente estruturado de colaboração que envolve o chão de fábrica, o conhecimento dos materiais e das tecnologias disponíveis, a análise de custos, a prototipagem, a viabilidade econômica, o posicionamento e a apresentação comercial do produto.
Os resultados dessa integração ganham forma e circulação internacional por meio da Mostra Design + Indústria. Mais do que objetos acabados, o que se coloca em exposição é também o caminho até o produto: encontros entre repertórios, decisões de fábrica, gestos criativos, capacidades produtivas e novas possibilidades de forma, uso e linguagem. É um recorte do design brasileiro como construção coletiva, alimentada pelas vivências, culturas materiais, hábitos, técnicas e biomas de cada região. Ao chegar a Milão e Nova York, dois dos principais palcos globais do design, essas criações ampliam a visibilidade e a valorização dos designers brasileiros, além de projetarem as peças, as empresas e todo o conjunto que as tornou possíveis.
O sexto ciclo, iniciado em junho de 2026, reúne 30 empresas e cerca de 40 designers e estúdios. Esperamos que essas conexões resultem em novas peças e soluções, parcerias duradouras e mudanças na própria cultura empresarial. Quando incorporado à estratégia, o design contribui para reduzir desperdícios, racionalizar processos, ampliar o valor percebido, responder aos novos modos de morar e trabalhar e desenvolver produtos mais adequados a diferentes canais e mercados.
Fornecedores | Como a exportação brasileira de móveis tem crescido e sido pulverizada por meio do Projeto Comprador do Brazilian Furniture?
Cândida | O Projeto Comprador, realizado no âmbito do Brazilian Furniture, aproxima indústrias brasileiras de importadores selecionados em mercados estratégicos. As agendas são construídas a partir da compatibilidade entre o que cada comprador procura e o perfil, o portfólio e a capacidade de atendimento das empresas nacionais. Como as rodadas ocorrem em feiras, congressos e outros eventos setoriais, a experiência ultrapassa as reuniões: os convidados têm acesso a diferentes segmentos da oferta brasileira, à realidade dos polos produtivos e hubs comerciais locais, bem como aos demais elos que compõem a cadeia de móveis no Brasil.
Para nossas indústrias, esse contato direto reduz custos e barreiras de prospecção, oferece informações sobre preços, volumes, padrões técnicos, adaptações, logística e canais de distribuição e permite avaliar a receptividade dos produtos em diferentes mercados. E, claro, o resultado não se encerra na rodada, já que cada encontro pode iniciar processos de negociação, adaptação de produtos, representação comercial e fornecimento que amadurecem ao longo dos meses seguintes e podem resultar em parcerias de longo prazo.
A dimensão desse trabalho aparece nos resultados consolidados do Brazilian Furniture em 2026. Até julho, as ações registraram 619 participações empresariais e promoveram 4.747 rodadas de negócios, reunindo 251 compradores internacionais de 57 países. A abrangência alcança mercados da América Latina, América do Norte, Europa, África, Ásia, Oriente Médio e Oceania, demonstrando uma prospecção que combina destinos consolidados, economias emergentes e novas frentes para o setor moveleiro brasileiro.
Os indicadores das exportações ajudam a compreender esse movimento. Depois de avançarem em 2024 e 2025, as vendas brasileiras de móveis e colchões ao exterior recuaram 6,5% no primeiro semestre de 2026, pressionadas principalmente pela retração do mercado americano. Excluídos os Estados Unidos, entretanto, os embarques para os demais destinos cresceram aproximadamente 7,2% na primeira metade deste ano. Esse crescimento ainda não compensa integralmente a perda no principal destino do setor, mas demonstra que novas frentes comerciais vêm ganhando consistência.
A agenda segue em expansão. Na ação mais recente, realizada durante a Movelsul Brasil, em Bento Gonçalves (RS), o Projeto Comprador reuniu 70 indústrias brasileiras e 25 importadores de 16 países. Em novembro, realizaremos uma nova edição durante o 13º Congresso Nacional Moveleiro, em Curitiba (PR), para a qual mais de 75 indústrias brasileiras já manifestaram interesse. Nossa expectativa é ampliar a rede internacional dessas empresas, gerar novos contatos qualificados e criar condições para o avanço de negociações.
Nesse sentido, preferimos falar em diversificação e desconcentração dos destinos, e não simplesmente em pulverização. Trata-se de construir uma presença internacional mais distribuída, apoiada em relações comerciais contínuas. O Projeto Comprador contribui para essa estratégia ao aproximar quem produz de quem decide a compra e ao criar caminhos para que um primeiro contato se transforme em acesso efetivo a um novo mercado.







