13º Congresso Nacional Moveleiro debate competitividade

Segundo dia do 13º Congresso Nacional Moveleiro reuniu discussões sobre planejamento estratégico, transformação digital, eficiência industrial, comércio internacional e diferenciação de marcas

Publicado em 5 de novembro de 2026 | 21:41 |Por: Julia Magalhães

O Congresso Nacional Moveleiro encerrou sua 13ª edição nesta quinta-feira, 5 de novembro, em Curitiba (PR), com uma programação voltada aos desafios de competitividade da indústria brasileira de móveis. O segundo dia reuniu especialistas e lideranças para discutir caminhos que envolvem planejamento de longo prazo, eficiência produtiva, novos canais de comercialização e construção de valor para as marcas.

A programação teve como um de seus pontos centrais o lançamento da Rota Estratégica da Indústria Moveleira Paranaense 2035, iniciativa que estabelece referências para o desenvolvimento do setor na próxima década. As apresentações também abordaram as mudanças no comportamento do consumidor, os impactos da reorganização do comércio internacional e a necessidade de fortalecer a gestão empresarial.

A programação evidenciou que a competitividade da indústria moveleira depende de decisões que ultrapassam o ambiente fabril. A capacidade de compreender o mercado, utilizar dados, desenvolver pessoas e construir diferenciais consistentes esteve presente em diferentes momentos do encontro.

Crédito: Júlia Magalhães

Rota estratégica para 2035

A Rota Estratégica da Indústria Moveleira Paranaense 2035 foi apresentada pelo presidente da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) e coordenador do Conselho Setorial da Indústria Moveleira da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Irineu Munhoz, e pelo gerente do Observatório do Sistema Fiep, Sidarta Ruthes.

Desenvolvida pelo Conselho Setorial em parceria com o Observatório, a iniciativa resulta de um processo colaborativo que envolveu empresários, especialistas, lideranças e representantes da cadeia moveleira. O objetivo é estabelecer uma visão compartilhada de futuro, considerando as características e necessidades das empresas paranaenses.

A construção do documento passou por cinco etapas: articulação dos atores, diagnóstico da situação atual, definição da visão de futuro, identificação de barreiras e fatores críticos de sucesso e elaboração de ações de impacto.

Segundo Munhoz, a rota oferece uma direção comum para o setor, respeitando a diversidade das empresas e das regiões produtoras. Para os sindicatos, representa uma ferramenta de articulação e representação institucional. Já para as indústrias, pode servir de referência ao planejamento empresarial e à definição de prioridades. O dirigente ressaltou que a proposta é contribuir para a construção de uma indústria moveleira mais competitiva, inovadora e preparada para os desafios dos próximos anos.

Ruthes explicou que a iniciativa integra o trabalho desenvolvido pela Fiep na elaboração de instrumentos de planejamento prospectivo. A intenção é oferecer fundamentos para decisões estratégicas, identificar obstáculos ao desenvolvimento e favorecer a convergência de esforços e investimentos.

Digitalização e vendas

A transformação dos canais comerciais foi outro tema do Congresso Nacional Moveleiro. No painel sobre vendas digitais, os participantes discutiram como a presença on-line pode ampliar o alcance das indústrias e fortalecer o relacionamento com os consumidores.

Para a sócia do E-Commerce Brasil, Vivianne Vilela, o digital deve ser compreendido como uma ponte para a construção de relacionamentos e oportunidades comerciais. Ela chamou a atenção para a importância da narrativa institucional, especialmente nas páginas de apresentação das empresas.

Embora os sites industriais tenham evoluído desde a pandemia, Vivianne observou que ainda existe espaço para melhorar a comunicação. A proposta é transformar esses canais em ferramentas estratégicas de posicionamento, capazes de transmitir a identidade e a autoridade das marcas.

O fundador e CEO da Agência Virtue, Dionei Alves, apontou três pilares para o crescimento digital: estratégia, tecnologia e operação. Segundo ele, a digitalização deve ampliar as possibilidades comerciais das empresas, aproveitando a estrutura e os relacionamentos já construídos.

Os números apresentados pelo sócio e diretor da Magazord, Odair da Rosa, dimensionaram o potencial desse mercado. Conforme projeções da empresa, o segmento de home decor deverá representar 40% de seu volume bruto de mercadorias (GMV) em 2026, equivalente a R$ 1,2 bilhão de um total de R$ 3 bilhões. A categoria deverá registrar crescimento de 28% em relação a 2025. A plataforma também apresentou uma base de 550 clientes nesse segmento.

Outro indicador foi a evolução da recompra em uma janela de 12 meses, cuja taxa passou de 12,5%, em 2025, para 18,3% na projeção de 2026. Em contrapartida, o tíquete médio de móveis apresentou redução projetada de 5,9%, passando de R$ 1.794,36 para R$ 1.688,44. Os dados reforçaram a importância de acompanhar o comportamento do consumidor, os custos operacionais e os indicadores comerciais na definição das estratégias digitais.

Eficiência dentro da fábrica

Crédito: Júlia Magalhães

A busca por maior produtividade, com redução de desperdícios e valorização das pessoas, orientou a palestra de Celso Yukio Eizak, consultor em excelência operacional do Gemba Institute. Com o tema “Fazer mais com menos: a jornada da eficiência na indústria moveleira”, a apresentação abordou os desafios da indústria e a importância de aprimorar os processos produtivos.

Um dos referenciais da discussão foi o Sistema Toyota de Produção, modelo de gestão desenvolvido pela montadora japonesa que se tornou referência mundial em eficiência operacional. Sua filosofia está fundamentada na eliminação de desperdícios, na melhoria contínua e no envolvimento dos profissionais na identificação e solução de problemas.

Essa abordagem ajuda a compreender que produzir mais com menos não significa simplesmente reduzir equipes ou cortar custos. O objetivo é aproveitar melhor os recursos disponíveis, eliminar atividades que não agregam valor e desenvolver processos mais eficientes. Nesse contexto, a participação dos trabalhadores é essencial para identificar oportunidades de melhoria no cotidiano da fábrica.

A apresentação também contextualizou os desafios enfrentados pelo setor moveleiro. Entre os indicadores exibidos estavam a retração de 1,6% na produção industrial de móveis no primeiro semestre de 2026 e o crescimento de 3,6% na receita, conforme dados da Abimóvel apresentados durante o encontro.

Outro indicador apontou queda de 39,9% nas exportações brasileiras de móveis aos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026, enquanto os demais destinos registraram crescimento próximo de 5,5%. Também foi apresentada uma projeção de aumento médio de 9,4% nas tarifas de energia em 2026, com referência à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Diante desse cenário, a filosofia de melhoria contínua associada à Toyota oferece uma perspectiva para a gestão industrial. A identificação de desperdícios, a padronização das atividades e o aperfeiçoamento dos processos podem contribuir para aumentar a produtividade sem comprometer a qualidade.

Comércio global em transformação

As mudanças nas relações comerciais internacionais também estiveram no centro das discussões. O sócio e diretor de relações governamentais e comércio internacional da BMJ Consultoria, José Pimenta, analisou a reorganização das regras que orientam as trocas entre países.

Segundo o especialista, uma ruptura iniciada por volta de 2015 e 2016 alterou gradualmente a lógica predominante no comércio internacional. Se antes as decisões eram orientadas principalmente pela eficiência econômica, fatores relacionados à segurança nacional passaram a ocupar posição mais relevante, movimento intensificado após a pandemia.

Nesse contexto, a escolha de fornecedores e parceiros comerciais passou a considerar questões como alinhamento geopolítico, confiabilidade das cadeias de suprimentos e proximidade regional. Pimenta observou que, embora o ambiente internacional tenha mudado significativamente, parte das estruturas responsáveis pela formulação das regras comerciais permanece semelhante.

Oportunidades no varejo digital

O futuro do varejo moveleiro foi discutido pelo CEO da ECF Consultoria, Emerson Faccioli, e pelo fundador da GC Part, Rafael Coelho Casagrande, em um painel dedicado aos novos modelos de negócio e às oportunidades no Mercado Livre. Faccioli destacou que compreender a maneira como o consumidor pesquisa produtos é fundamental para desenvolver estratégias de venda nas plataformas digitais.

De acordo com levantamento apresentado pelo especialista, 80% das buscas analisadas são genéricas, relacionadas às categorias de produtos, enquanto 20% mencionam marcas ou modelos específicos. Esse comportamento pode abrir oportunidades para fabricantes de diferentes portes, uma vez que a visibilidade dos produtos depende também da capacidade de atender às pesquisas realizadas pelos consumidores.

A apresentação trouxe indicadores sobre a expansão do comércio eletrônico. Segundo dados da Morgan Stanley referentes a 2025, o canal digital representava 17,4% do varejo brasileiro, abaixo da média global de 23%, dos Estados Unidos, com 27%, e da China, com 32%.

No segmento moveleiro, os números apresentados indicaram penetração on-line de 20% nas categorias de móveis e colchões no Brasil. O País aparece como o quinto maior mercado on-line nessas categorias, atrás de smartphones, eletrodomésticos, vestuário e bazar. No Mercado Livre, foram destacadas 139 mil buscas diárias por móveis e uma expansão de dez vezes da categoria Casa & Decoração em cinco anos.

Faccioli também abordou a importância dos indicadores de desempenho para a gestão comercial. Conforme dados apresentados da plataforma, o investimento médio em publicidade correspondeu a 9,9% das vendas atribuídas aos anúncios, enquanto a relação entre investimento publicitário e faturamento total ficou em 4,8%, considerando os indicadores ACOS e TACOS. Os números mostram a necessidade de administrar os investimentos em mídia com base em dados, acompanhando a rentabilidade e o desempenho das operações.

Gestão e valor percebido

Crédito: Júlia Magalhães

Na última palestra do Congresso Nacional Moveleiro, o especialista em gestão empresarial e mercado de luxo, Carlos Ferreirinha, trouxe uma reflexão sobre a construção de diferenciais competitivos em mercados nos quais qualidade e preço já não são suficientes para assegurar a preferência do comprador.

Com o tema ‘Novos mercados demandam novas competências: como aprender com o negócio do luxo’, Ferreirinha defendeu que a indústria precisa ampliar sua compreensão sobre valor percebido, desejo e relacionamento com o consumidor.

O especialista propôs uma questão central às empresas: o que fará um comprador continuar escolhendo determinado fabricante quando outros oferecem produtos semelhantes, com qualidade e preços competitivos? Para ele, a resposta passa pela capacidade de transformar a excelência do produto em excelência de gestão, experiência e marca, de maneira consistente.

A abordagem não esteve relacionada à fabricação de produtos mais caros, mas à construção de motivos que sustentem a preferência do consumidor. Ferreirinha também destacou o papel da informação e do conhecimento na preparação dos profissionais para um ambiente de mudanças. A atualização constante, segundo sua análise, contribui para ampliar a capacidade de interpretação dos cenários e de identificação de oportunidades.

Durante a apresentação, elencou 12 competências e habilidades consideradas relevantes para os profissionais contemporâneos. Entre elas estão a capacidade de relacionamento e engajamento, a disposição para mudanças, a atenção aos detalhes, a curiosidade, a antecipação das necessidades dos clientes e a inteligência de segmentação.

O especialista também enfatizou a importância de defender os valores das marcas, desenvolver narrativas consistentes sobre seus diferenciais e proporcionar experiências que ultrapassem as expectativas dos consumidores.

A consistência apareceu como um dos conceitos centrais da palestra. Para Ferreirinha, a construção de valor exige coerência entre aquilo que a empresa produz, comunica e entrega ao mercado.

Encerramento do Congresso

Crédito: Júlia Magalhães

A programação do segundo dia incluiu ainda a realização do 2º Prêmio Design da Movelaria Nacional, dedicado ao reconhecimento do design no setor, seguida do coquetel de encerramento do evento. Ao longo dos dois dias, o 13º Congresso Nacional Moveleiro reuniu discussões sobre os desafios estruturais e comerciais da cadeia produtiva. Na etapa final, os debates convergiram para a necessidade de combinar planejamento, eficiência, conhecimento de mercado e diferenciação.

Da definição de uma visão estratégica para 2035 às oportunidades do comércio digital, as apresentações apontaram diferentes frentes de atuação para as empresas. Em comum, destacaram a importância de decisões fundamentadas em informações, capacidade de adaptação e gestão consistente para sustentar a competitividade da indústria moveleira brasileira.

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