13º Congresso Nacional Moveleiro aborda dados e jeitos do Brasil
Primeiras palestras do 13º Congresso Nacional Moveleiro mostra como empresas podem ser competitivas e como abrasileirar seus produtos
Publicado em 4 de novembro de 2026 | 17:23 |Por: Thiago Rodrigo

Na sede da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) em Curitiba (PR), começou o 13º Congresso Nacional Moveleiro. O evento realizado pela Fiep e pela Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) começou hoje e segue até amanhã, reunindo lideranças da indústria, varejo, design e economia para debater assuntos pertinentes que impactam o setor moveleiro, além de projetar o mobiliário brasileiro para o futuro.
Com o tema “Conexões”, e o mote “todos os caminhos do setor se encontram aqui”, o congresso foi aberto com abertura oficial e apresentação dos diversos sindicatos parceiros da Abimóvel e presentes no evento, entre outras autoridades. Em seguida, fala do presidente da Abimóvel e vice-presidente da Fiep, Irineu Munhoz, que apontou o propósito comum do evento: fortalecer a indústria moveleira, ampliar oportunidades e criar caminhos para o futuro do setor.

Irineu Munhoz
“Acreditamos que o desenvolvimento da nossa indústria depende cada vez mais da capacidade de trabalharmos juntos. É justamente este o significado do tema que nos une este ano, conexões. A indústria moveleira brasileira tem uma papel fundamental na economia brasileira, porém, vivemos um período de profundas transformações. Os acontecimentos da geopolítica mundial, a evolução do comportamento dos consumidores, a transformação digital e as exigências de sustentabilidade e produtividade, desafiam as empresas a rever estratégias e buscar novos caminhos. Por isso precisamos estar conectados para, entre outros, transformar informação em decisões para nossos negócios”, declarou.
Irineu também destacou diversos projetos realizados pela Abimóvel para alavancar a indústria moveleira, como o Brazilian Furniture, e fez o convite para os presentes aproveitarem os dois dias de palestras, de modo que as informações gerem conteúdos para estratégias que melhorem as empresas do setor moveleiro. O secretário municipal para desenvolvimento econômico e inovação, Sérgio Bento, falou na sequência, em nome do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel.
Ele foi seguido do diretor-técnico do Sebrae-PR, Cesar Rissete. “Temos atuado cada vez mais em parceria com a Fiep e com a Abimóvel com o PDCIMob, pois cada vez mais o Sebrae tem de estar conectado com a demanda das empresas. O Sebrae é um serviço de apoio, com o papel de servir às empresas”, diz ele sobre a entidade que trabalha em prol de micro e pequenas indústrias, comércios e serviços. Por fim, falou Edson José Vasconcelos, presidente da Fiep.
Dados para vantagem competitiva
Com dados e informações que explicam parte disso em prol da construção de vantagem competitiva do setor moveleiro, o diretor do Iemi – Inteligência de Mercado, Marcelo Prado, fez a primeira palestra. Ele iniciou sua fala abordando que o ambiente atual não é favorável para a indústria, mas mostrou que é preciso entender o mercado para enfrentá-lo. Segundo ele, o Brasil, em 21 anos, tem 17% mais habitantes, sendo 31 milhões a mais de brasileiros e, cresceu 67% seu PIB, com 41% de renda per capita, sendo renda atual de R$ 60 mil por habitante.
Na indústria de transformação houve crescimento de apenas 18%, comprovando a crítica da indústria brasileira que não houve ambiente favorável para ela. “Existe países ricos sem indústria, mas não existe países desenvolvidos sem indústria”. No mesmo período, houve 79% mais gastos das famílias, sendo 8,25 trilhões consumidos em 2025. Por outro lado, comparado com países como China e Índia, esse crescimento é menor.
Móveis e colchões capturaram 52% do consumo de móveis em 21 anos, um período que o brasileiro envelheceu de 29 a 36 anos de idade média, tendo 2,7 pessoas por domicílio, fazendo com que os imóveis se modifiquem para atender esse novo formato de família – antes era 3%. O número de domicílios aumentou, de 60 milhões para 78 milhões, sendo este o motivo para o qual sustenta o setor, sendo que foi de 8 vezes o aumento médio dos gastos com a casa.
Dos 8,25 trilhões de reais consumidos, 3,77 trilhões são gastos em bens de consumo, produtos como móveis e colchões e Prado alertou que o gasto para viver ficou maior com essa porcentagem de bens de consumo diminuindo. Entre os principais produtos gastos pelas famílias estão alimentos, veículos e vestuário, com móveis e colchões estando na 9ª posição.
O setor moveleiro em 21 anos, cresceu 58% no número de indústrias e 28% no emprego, que geraram aumento de 39% da produção de móveis e 71% na produção de colchões, com geração de valor dos produtos de 10% e 11% de produtividade. Em termos de exportação, houve diminuição de 11% para 4,8% do total de peças, por outro lado, tendo crescimento na importação de menos de 1% para 5,1%. “O setor tem feito um bom trabalho através do Brazilian Furniture buscando novos destinos, mas isso não substitui um Estados Unidos em termos de consumo”, apontou.

Marcelo Prado
No varejo de móveis e colchões, o consumo em 2025 foi de R$ 139,1 bilhões, crescimento de 9% em relação a 2024. Comparado ao início de 2021, houve alta que foi buscada nas importações. “Temos 196 países no mundo, o Brasil entre os maiores, devemos chegar entre os 10 maiores nos próximos anos, apesar de tudo. Pensa bem onde você quer ir se quiser ir para fora do Brasil. Se você está entre os dez maiores mercados do mundo, um mercado que não tem um concorrente que te impeça de crescer, acho que você tem uma oportunidade. É questão de entender onde estão essas oportunidades. Essa é a análise que precisa se fazer e começa a usar a informação para montar o planejamento do negócio”.
No cenário macro do mercado, de acordo com Prado, estão a reforma tributária, a jornada 5×2, o juros e endividamento das famílias, com o petróleo e derivados em alta. Segundo o diretor do Iemi, o acesso às informações nunca foi tão democrático, com internet, inteligência artificial, publicações, plataformas, eventos, pesquisas de mercado (como o Iemi). “Como aplicar os dados na gestão entra inteligência de mercado, que é um nome pomposo para pegar um dado do mercado, tratar essas informações para que sejam comparáveis entre si e colocar em uma ferramenta que me permita criar indicadores de comparativos da minha empresa com o mercado, que permite chegar aonde estão as oportunidades”, explica.
O planejamento é a resposta para isso. “Há um bordão popular é: quem planeja tem futuro, quem não planeja tem destino. Sabe qual a maior competitiva da China em relação ao resto do mundo: planejamento. Planejar e executar conforme foi planejado, é isso que falta para nossas empresas”, declarou.
Marcelo Prado destaca que para isso tudo é preciso entender a empresa primeiro: cada momento de vida determina a estratégia a ser explicada, sendo preciso fazer uma leitura. Na lei biológica das empresas, Prado mostrou que 80% das empresas não passam da fase empreendedora, comparado aos humanos com a infância. “As empresas também morrem um dia e aí temos de buscar qual momento de vida sua empresa está”. Para sobreviver, é preciso criar curvas de crescimento, dependendo principalmente da inovação. “É criar caminhos opcionais para as empresas que chegam na maturidade e seu modelo de crescimento se esgotou, ela tem de se modificar”. Os desafios para isso acontecer estão, segundo Prado, no presidente, no diretor, no CEO, que aponta que uma das barreiras à inovação estão na cultura da empresa.
Em outra parte de sua palestra, o diretor do Iemi salientou que o mercado moveleiro é enorme e fragmentado, com nenhum a empresa tendo poder de mercado suficiente para impedir o crescimento do concorrente. “O mercado de móveis é muito cheio de camadas de preço. Às vezes um móvel de madeira feito com uma chapa tradicional, custa um preço em um lugar e outro preço em outro lugar. Às vezes só onde está sendo ofertado o preço muda muito e para isso é preciso inovação”, disse ele que destacou que as empresas moveleiras não estão fadadas a vender apenas por representantes comerciais, com outras vertentes como o phygital.
Uma das tendências que Prado mostrou é a interiorização do consumo, sendo que de 2021 para 2025, houve estados que cresceram 24% no período, enquanto a média foi de 3%. “Para ser líder no mercado moveleiro, tem de performar bem em mais de 3 mil municípios”, citou como exemplo. Enquanto lojas multimarcas tem maior potencial de crescimento, as lojas especializadas e de móveis planejados tem maior valor adicionado, com o e-commerce tendo o maior crescimento no mesmo período. Olhando só o varejo físico, também houve crescimento. “São formas estratégicas para obter crescimento sem competir por preço”, frisou.
Por fim, Prado destacou que o maior ativo das empresas é a marca e criar valor para as marcas de móveis e colchões no Brasil pode ser feito através da melhoria do mix de produtos, estratégicas de precificação, ser encontrada e única para os consumidores. A cobertura mercadológica e bom posicionamento no ponto de venda geram lembrança de marca “top of mind”, como exemplificado pelo palestrante no case de uma empresa.
Estratégias chinesas e os desafios do Brasil
Néli Pereira, escritora, jornalista e mixologista, deu a palestra “Abrasileirar é um negócio da China” – que resume bem o tema “China em movimento: a estratégia de liderança nas vendas e os desafios do Brasil para aproveitar oportunidades de mercados inexploradas”. Ela iniciou falando que é da época de que fazer um negócio da China era bom. “Mais importante do que ver o que eles estão fazendo é ver o que nós não estamos fazendo e, por isso, precisamos buscar alternativas porque muitas marcas brasileiras estão precisando ‘abrasileirar’ para poder conversar melhor com o consumidor brasileiro”.
A palestrante mostrou que a China conhece a escala: “a gente não vê o chinês destruindo suas origens e culturas, enquanto no Brasil vemos isso acontecendo. Então é preciso o brasileiro conhecer a própria casa. Mesmo em São Paulo que tem uma densidade demográfica absurda, não é comparado com a China”, destacou. Na China, há um pragmatismo financeiro que faz lazer fora de casa e com praticidade que vem antes da estética. “Uma coisa que eles fazem muito bem, para além da escala, é a integração com fornecedores. No setor têxtil isso funciona muito bem, assim como no setor de eletrodomésticos”, disse, cobrando das empresas que levam funcionários para ver as tendências de Milão, mas não leva para cidades do interior do Brasil para ver o que eles demandam.
Segundo ela, a casa brasileira é muito enfeitada, que recebe, guarda, enfeita, adapta, cabe mais um e expressa pertencimento, longe dessa tendência do bege. “O brasileiro inova com o que tem, ele vai usar um produto de limpeza para decorar a casa. As pessoas reinventam os produtos e os móveis que elas compram, porque a indústria não olha isso para criar produtos. Por que a gente não olha para casa? Não olha o nosso entorno, para o nosso Brasil? Desculpa falar, mas de Milão vamos extrair os mesmos tipos

Néli Pereira
de tendências e será difícil abrasileirar. Olhar para onde todo mundo está olhando talvez não seja a melhor estratégia de mercado no Brasil”, cutucou os presentes. A palestrante alertou que há diferentes jeitos de morar no Brasil e que os móveis são iguais para serem vendidos no País todo.







