Sucessão empresarial e Brasil pós-eleições finalizam 1º dia do CNM

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Publicado em 5 de novembro de 2026 | 10:00 |Por: Thiago Rodrigo

O primeiro dia do Congresso Nacional Moveleiro (CNM) concluiu ontem (4 de novembro) com painel sobre sucessão empresarial, que abordou os desafios e oportunidades para a nova geração, com Diego Munhoz, CEO da Caemmun, André Behne, sócio e gerente de marketing do Grupo MSA e Roberta Mandelli, empresária sócia-fundadora da Tidelli Brasília, bem como sobre o Brasil pós-eleições: cenários, riscos e oportunidades no novo tabuleiro global, foi o tema da palestra de Marcos Troyjo, economista, sociologista e diplomata.

Diego Munhoz mostrou como as empresas familiares sobrevivem às suas gerações e levantou que a sucessão não é assunto de família, é assunto de país. André lembra que as empresas criavam como base de sustento e hoje em dia criam empresas para vender. “Não se imaginava o tamanho que a empresa iria chegar. Começar a sucessão cedo é importante”, disse ele que é da terceira geração da empresa. Para isso, ele mostrou que é importante ter bem a diferença entre a sucessão e governança.

Congresso Nacional Moveleiro

Já Roberta, da Tidelli, contou que a marca tem três sócios com sucessores tendo filhos de 35 a 1 ano. “A questão é aprimorar a próxima geração com treinamentos e educação. São três sócios de uma indústria que tem de passar o bastão para quem não chegou”, observou. Enquanto governança é um conjunto de práticas que vão ditar o processo das empresas, a sucessão pode ser profissional ou familiar: apenas 27,6% das empresas familiares têm plano de sucessão para cargos-chave.

Munhoz destacou que, nem sempre, o dono do avião vai ser o piloto e Roberta mostrou que pode haver o momento de trazer alguém de fora. Para lidar com ambição, expectativas e conflitos entre gerações e herdeiros, André contou que tudo foi resolvido com comunicação, no qual entrou muito a governança dentro do conselho de sócios da empresa. “A ambição é motivacional, mas também pode causar problemas. Sem dúvidas, um dos aspectos mais importantes é quando a propriedade vai sendo dividida. É natural que tenhamos “concorrentes”, dentro da empresa, porque qualquer um tem ambições”, disse.

Brasil pós-eleições

Os cenários, riscos e oportunidades para as empresas brasileiras no novo tabuleiro global foi assunto de Marcos Troyjo, economista, sociologista e diplomata, que encerrou o primeiro dia do 13º Congresso Nacional Moveleiro falando online de Boston do MIT no qual palestrou sobre o Brics. Ele iniciou fazendo uma analogia para o próximo período político do Brasil: cabo de guerra. “Penso que essa imagem do cabo de guerra é bastante ilustrativa”, frisa.

Segundo ele, deve-se ser observado nos próximos anos a maneira como o Brasil pode cooperar ou se defender de produção excessiva de algumas partes do mundo e o que será feito domesticamente, ou seja, como a economia brasileira vai gerir seus dilemas e o complexo de riscos e oportunidades que vem do mercado internacional. No ambiente interno, há uma preocupação muito grande sobre quais serão os rumos econômicos no novo ciclo 2027-2030. “Abro parênteses para uma frase do Mario Henrique Simonsen que fez uma classificação do grau de escala dos problemas econômicos: taxa de juros machuca, inflação alta aleija e câmbio fora de controle, mata”, falou.

“Não vejo um ciclo virtuoso para a economia brasileira, com problemas nas taxas de juros e impostos”

No entanto, a balança comercial brasileira teve triplicação do superávit comercial nos últimos anos: em 2023, chegou-se a um número bastante grande e, em 2026, ano marcado pelo recrudescimento das barreiras protecionistas dos Estados Unidos, o Brasil deve acumular um superávit comercial superior a US$ 70 bilhões. Um motivo para isso é a agricultura. O cenário mundial possui quatro potências agroindustriais (China, Índia, EUA e Brasil) e, excluindo a China que é um destino muito importante para as exportações agroindustriais brasileiras, há a Índia com taxa de crescimento maior que a China, atualmente em 7% ao ano, e outros países da Ásia com largo potencial de crescimento como Indonésia e Paquistão, ambos como alto número de habitantes. “O crescimento relativo dessas economias vai ser um grande puxador de áreas que o Brasil tem grandes vantagens comparativas, como minerais e energia”, frisou.

Uma das principais razões para a derrota republicana no Senado e Câmara dos EUA nesta semana, é a Guerra do Irã, que afetou a economia estadunidense. “Hoje, o principal importador mundial de petróleo é a China e ela quer ter a segurança de que vai comprar de um fornecedor que não vai ter interrupção disso. Com isso, o Brasil superou a Arábia Saudita como maior vendedor de petróleo para a China. Então, seja pelas razões do crescimento de outros países, da diversidade energética e de que esses países vão investir muito em infraestrutura, o que vai puxar a demanda de produtos brasileiros, vamos estar em um patamar alto que vai ser uma força em relação ao dólar”, avaliou.

Outro fator apontado pelo economista é o Acordo Mercosul-EU que entrou em vigor no último dia primeiro de maio. Segundo dados apontados por Troyjo, nos cinco primeiros meses as exportações para o mercado europeu aumentaram 1 bilhão de euros por mês. “É um valor muito considerável e que vai se juntar a essa tendência de que o Brasil é um país que acumula superávit nas relações com o resto do mundo”, disse o economista. Outro fluxo que demonstra o que o Brasil significa para a economia mundial, são os chamados investimentos estrangeiros diretos (IED).

“O peso dos impostos no Brasil é um ‘autotarifaço’, sendo um maior problema do que o implementado pelo Governo Trump”

Seja para modernização fabril, processo de fusão e aquisição, aporte de nova capacidade produtiva, dados da OCDE mostram que os países entre as economias que estão mais recebendo investimento estrangeiro direto, de 2021 a 2025, em primeiro lugar estão os Estados Unidos, com PIB nominal de 32 trilhões de dólares. Em segundo lugar está a China e quem está em terceiro lugar no cangote da China, é o Brasil. Observando os motivos para este capital estar vindo para o Brasil, o principal motivo é de que hoje, no mundo, existe uma tremenda insegurança agroalimentar, além de imensa necessidade energética, também do ponto de vista geográfico e, uma terceira razão feita por Troyjo é a seguinte:

Se entrarmos em um túnel do tempo e voltar para o dia 4 de novembro de 2006, vemos a China de 20 anos atrás crescendo 10% ao ano, se olha para a Rússia, com os minerais que tem, tinha a Europa com a maior economia do mundo na época (no PIB somado dos países maior que os EUA). “Todos esses pontos estavam em uma conjuntura muito brilhante e hoje estão mais fracos”, pontua. Se a China crescia tanto lá atrás, hoje é 4%, o que ainda é muito comparado ao valor que possui, crescendo uma Argentina a cada 12 meses. A Rússia não está no mesmo patamar e a União Europeia tem seus momentos conturbados. Isso tudo leva a atratividade para uma economia como o Brasil, também porque está longe dos conflitos do Oriente Médio e da Rússia-Ucrânia.

Congresso Nacional Moveleiro

“Quando se olha e vê esses fluxos chegando no Brasil, veremos que estão vindo de um tipo de investidor que não está preocupado com o resultado contábil do próximo quadrimestre ou de um ano. É um investidor estratégico de longo prazo que vê no Brasil um destino importante para um tema essencial no mundo como alimentos e energia, além de insumos para infraestrutura”, apontou. Outro elemento são as questões dos minerais críticos, matéria-prima da ciência no século XXI, do qual, a China é quem possui mais desses minerais, seguida do Brasil que possui 25% deles. “Está vindo e virá cada vez mais um fluxo de investimentos para se aproveitar do potencial brasileiro desse setor”.

No campo da inteligência artificial, Troyjo citou o fundador e presidente da Nvidia que disse que a IA é um bolo de cinco andares: o primeiro andar tem água, terra, energia e minerais críticos, segundo andar com semicondutores com chips e placas, terceiro andar com a infraestrutura de Data Centers, quarto andar com modelos e linguagens utilizadas e o quinto andar que são as aplicações, o que é feito com a inteligência artificial. Nisso, ele contou que o Brasil tem força no primeiro andar, não tem no segundo, o terceiro andar tem oportunidades no País, no quarto andar a chance brasileira é pequena, do qual o campo das aplicações da IA, o céu é o limite e a IA é um empoderador da nossa competitividade e design. “Há um jogo legal para nós e estou dizendo isso tudo porque, dentro de um mundo ‘geopolitizado’ tem sido bom para a economia brasileira esse jogo que ocorre lá fora. Agora, quando se olha para a parte interna, há mais razões de preocupação”, contou.

Lições no ambiente interno

Troyjo publicou um estudo no mercado sobre a relação dívida-PIB do Brasil do mundo e contou ao público presente para falar dos problemas econômicos do País que tem de ser melhorados. “No final do governo Bolsonaro, o Brasil está com 71% do seu PIB denominado em dívida e agora tem os atuais 83%. Nisso, peguei as economias emergentes e fiz três perguntas: como está a relação dívida-PIB desses países emergentes, qual é a taxa de juros e o que significa a cobrança desses juros sobre essa dívida, no período de 2021 a 2026”, contou.

Nesse intervalo de cinco anos, há países que a relação dívida-PIB que caiu, como a Indonésia. Outros países ficaram equilibrados como é o caso da Índia. Um país tem um patamar superior ao brasileiro que é o da China, do qual deve 105% do seu PIB, mas com taxa de juros pequena o que representa uma saída muito menos significativa. Mas quem tem o maior problema infelizmente é o Brasil. E o vencedor das eleições não vê isso como um problema bastante grave, o que me deixa bastante preocupado, além de terem uma visão econômica que ainda não sei qual que é, mas que não vê nisso um problema”, avaliou Troyjo.

“Em um momento que se tem uma dissonância do tipo de administração de alguns estados amigos dos mercados que quer empreender, vão se diassociar do restante do Brasil que tem uma visão mais estatizante”

Ele ponderou que tudo o cenário mundial mencionado anteriormente funciona como atenuante para economia nacional, mas enquanto isso o Brasil fica com seu próprio problema da taxa de juros. “Não consigo ver muita saída a não ser a diminuição do principal tomador de crédito que é o governo brasileiro. Não fosse isso, haveria muito mais capital na mesa para abastecer as famílias, ter capital de giro nas empresas para financiar inovações e tecnologias”, destacou.

Essa combinação de forças internas que não estão bem ajeitadas, com forças externas do Brasil, permite que Troyjo diga que, no horizonte, “construir um projeto de crescimento baseado no negacionismo econômico com custo de capital muito elevado, é algo que vamos ter de batalhar bastante e discutir cada vez mais, forçando, por meio de representantes no congresso, para um debate nacional”.

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