Abimóvel se posiciona sobre fim da escala 6×1

Abimóvel defende que a discussão sobre fim da escala 6×1 seja tratada com um horizonte realista de implementação

Publicado em 21 de abril de 2026 | 08:00 |Por: Thiago Rodrigo

A cadeia do mobiliário reúne mais de 22,8 mil empresas, gera aproximadamente 287,2 mil empregos diretos e movimenta uma estrutura produtiva superior a R$ 92,1 bilhões por ano (dados atualizados de 2025). Esse universo é formado, em sua ampla maioria, por empresas de menor porte, que geralmente possuem menor capacidade de absorver variações abruptas de custo, reorganizar turnos de forma imediata ou financiar transições longas sem impacto no caixa. Neste sentido, a Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel) avalia que uma alteração estrutural na forma de organizar o trabalho, como o fim da escala 6×1, pode ser tanto um vetor de modernização quanto um choque de custo e desequilíbrios operacionais

A entidade tem enfatizado três dimensões técnicas que precisam estar explícitas em qualquer proposta sobre o fim da escala 6×1:

Estrutura tributária e limites de compensação para MPEs: boa parte do setor opera sob o Simples Nacional, em que a tributação incide predominantemente sobre faturamento. Isso reduz o alcance de medidas compensatórias desenhadas exclusivamente via desoneração de folha. Quando o mecanismo de compensação não “chega” com força às micro e pequenas, a transição passa a ser desequilibrada: a regra muda para todos, mas a capacidade de adaptação não é igual.

Organização da produção e integração com o varejo: o mobiliário está conectado a uma dinâmica comercial específica: consumo de bens duráveis concentra decisão e fluxo em finais de semana, e a cadeia produtiva precisa responder a isso com planejamento, abastecimento e logística. Ao mesmo tempo, a indústria opera com processos contínuos — secagem de madeira, estufagem, linhas de acabamento — que dependem de estabilidade de programação. Uma alteração rígida nas escalas, sem desenho de transição e sem flexibilidade setorial, tende a gerar custo indireto, perda de eficiência e gargalos operacionais.

8 em cada 10 brasileiros entre 16 e 40 anos são a favor do fim da escala 6×1

Produtividade e qualificação como condição de sustentabilidade: em experiências internacionais, redução de jornada sustentável costuma ser consequência de avanços progressivos: tecnologia, qualificação, reorganização do trabalho e ganhos consistentes de produtividade. No Brasil, a produtividade por hora ainda não avançou no ritmo necessário para que uma mudança imediata seja neutra para custo e competitividade. E, no setor moveleiro, o recuo recente de produtividade, que foi de -8,4% em 2025, reforça a sensibilidade ao aumento do custo-hora sem contrapartida de eficiência.

A entidade defende que a discussão seja tratada com um horizonte realista de implementação: transição progressiva entre cinco e dez anos, acompanhada de políticas estruturadas que garantam competitividade, modernização e sustentabilidade para o setor moveleiro. Também enfatiza que a negociação coletiva é o mecanismo institucional mais adequado para calibrar escalas e jornadas às realidades regionais e setoriais.

“O Brasil dispõe de instrumentos consolidados para isso. Fortalecê-los permite que se encontre um ponto de equilíbrio entre bem-estar, renda, produtividade e viabilidade empresarial, sem impor uma única solução para ambientes produtivos completamente distintos. Em um setor heterogêneo como o moveleiro, a negociação coletiva traduz melhor o chão de fábrica: porte da empresa, sazonalidade, perfil de demanda do varejo, disponibilidade de mão de obra e nível de automação. Uma regra uniforme pode ser simples no papel, mas costuma ser complexa e custosa na operação”, aponta.

Esse posicionamento foi consolidado pela Abimóvel em manifestação técnica formal encaminhada ao Vice-Presidente da República e Ministro do MDIC, Geraldo Alckmin, no contexto da PEC 8/2025 e proposições correlatas. No ofício, a entidade registra os fundamentos econômicos e produtivos do setor, reforça os riscos de uma aplicação imediata e linear e propõe a construção de uma transição baseada em evidências, com metas de produtividade, qualificação e centralidade da negociação coletiva.

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