Exportações de móveis e colchões crescem 0,8% em 2025

Resultado foi abaixo das expectativas para o ano, com tarifaço dos EUA impactando desempenho no segundo semestre

Publicado em 2 de fevereiro de 2026 | 09:30 |Por: Thiago Rodrigo

O ano se inicia em um ambiente de negócios mais denso e tecnicamente complexo,marcado por reconfigurações na geopolítica internacional, novas dinâmicas comerciais e pressões estruturais sobre as cadeias produtivas ao redor do mundo. No acumulado de janeiro a dezembro de 2025, as exportações brasileiras de móveis e colchões somaram US$ 769,3 milhões, registrando crescimento de 0,8% frente a 2024.

Apesar do resultado positivo, o dado ficou muito aquém das expectativas iniciais, que giravam em torno de +2,5%, confirmando a perda de fôlego na reta final do ano:
– janeiro até outubro: +2,1%
– até novembro: +1,5%
– fechamento de janeiro a dezembro: +0,8%

O movimento indica desaceleração após o fim da antecipação de embarques observada no início do segundo semestre, antes da entrada em vigor do “tarifaço” americano, sinalizando também o esgotamento de estímulos conjunturais, maior cautela nos fluxos comerciais e a necessidade de uma estratégia estruturada de internacionalização.

Tarifaço dos Estados Unidos

Nesse contexto, o mercado americano permanece como variável crítica. A Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário) acompanha com atenção a iminente decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos sobre a constitucionalidade das tarifas de até 50% aplicadas a produtos importados do Brasil, entre eles o mobiliário.

O setor chega a este momento após um ano de ajuste forçado, marcado por interrupção de contratos, paralisações produtivas, desligamentos, aumento de estoques e readequações financeiras motivadas pelo tarifaço.

Dessa forma, apesar de seguirem como principal destino das exportações brasileiras de móveis, a participação dos Estados Unidos nos embarques do setor caiu significativamente em 2025, finalizando o ano com marketshare de 23,5%, após anos operando próximo ou acima de 30%.

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Importante também destacar a assimetria do impacto: enquanto o Brasil representa menos de 1% das importações totais de móveis dos EUA (o que não compromete ou ameaça a indústria americana), para muitas empresas brasileiras o país concentra a maior parte de suas exportações, com casos que variam de 30% até 100%.

Por outro lado, há um sinal positivo no curto prazo: o governo dos Estados Unidos decidiu adiar para janeiro de 2027 o aumento das sobretaxas aplicadas a determinados produtos de madeira e seus derivados, incluindo madeira serrada, painéis de madeira, mobiliário estofado, armários de cozinha e gabinetes de banheiro. Com isso, ao longo de 2026 permanecem vigentes alíquotas entre 10% e 25% para a maior parte dessas categorias.

Quadro tarifário atual:
– Softwood timber e lumber: tarifa mantida em 10% ad valorem (Seção 232), sem alteração.
– Móveis estofados de madeira: tarifa de 25% ad valorem ao longo de todo o ano de 2026; aumento para 30% adiado para 1º de janeiro de 2027.
– Kitchen cabinets e vanities (incluindo partes): tarifa de 25% ad valorem em 2026;
elevação para 50% adiada para 1º de janeiro de 2027.

O adiamento reduz, momentaneamente, o risco de um novo choque tarifário, mas não representa normalização das condições de acesso ao mercado. A possibilidade de aplicação futura de sobretaxas mais elevadas segue condicionada tanto à deliberação da Suprema Corte americana quanto ao avanço das negociações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

Tal situação também reforça a percepção de risco concentrado em um único mercado, o que mantém a prospecção ativa especialmente na América do Sul, Europa, Oriente Médio e Ásia, mesmo em um cenário favorável nos EUA. Outra preocupação, porém, é que o movimento iniciado por lá crie precedentes para que outros países adotem medidas semelhantes, assim como ocorreu com o México.

Ampliando, então, o grau de restrição ao comércio internacional de bens industriais e afetando a curto e médio prazo a capacidade de redirecionamento das exportações brasileiras.

“Independentemente da decisão da Suprema Corte americana, o comércio exterior no setor já opera sob um novo paradigma: mais fragmentado, mais regulado e menos previsível. A eventual queda das tarifas pode acelerar a estabilização, mas não eliminaria a necessidade de diversificação de mercados, fortalecimento da competitividade industrial e coordenação entre política comercial, econômica e industrial”, declara Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel e gerente do Projeto Setorial Brazilian Furniture, em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos).

Acordo Mercosul–UE

Ainda no plano externo, o Acordo Mercosul-União Europeia se projeta como um dos movimentos mais relevantes do comércio exterior neste momento, tendo potencial de ampliar o acesso do Brasil a um dos maiores mercados consumidores de móveis do mundo.

Após mais de 25 anos de negociações, a assinatura oficial do acordo ocorreu no último dia 17 de janeiro, envolvendo dois blocos que somam cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. Para a indústria brasileira de móveis, o acordo assume caráter estratégico no contexto de reposicionamento internacional. Em 2025, a União Europeia respondeu por 9,3% das exportações brasileiras de móveis e colchões, em ritmo ascendente.

Com o tratado, estudos preliminares da Abimóvel e do Iemi indicam potencial de crescimento adicional de até 20% já no primeiro ano de vigência. Contudo, o processo enfrenta entraves institucionais: o Parlamento Europeu acionou a Corte de Justiça da União Europeia para avaliação jurídica do tratado, suspendendo a votação final e podendo postergar sua ratificação por até 24 meses.

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