Compasso de espera na virada do semestre
Confiança do comércio volta a subir em junho, mas indicadores estruturais apontam para um segundo semestre ainda dependente de crédito e condições de pagamento
Publicado em 17 de julho de 2026 | 08:49 |Por: Julia Magalhães

Junho encerrou a primeira metade do ano com um sinal ambíguo para o varejo. O Índice de Confiança do Comércio (ICOM) do FGV IBRE subiu 0,9 ponto no mês, alcançando 85,1 pontos, e a média móvel trimestral avançou 0,2 ponto, para 85,2 pontos. A alta é bem-vinda, mas insuficiente para compensar a queda de 2,0 pontos registrada em maio.
Na leitura do superintendente adjunto do FGV IBRE, Rodolpho Tobler, o resultado positivo de junho não representa uma virada. “A concentração do resultado positivo em poucas atividades contribui para precaução. Mesmo com os números favoráveis no mercado de trabalho, com evolução na renda das famílias, a confiança dos consumidores não tem conseguido evoluir e isso tem refletido no ritmo do varejo.”
O movimento interno do ICOM reforça essa leitura. O Índice de Situação Atual do Comércio (ISA-COM) avançou 0,9 ponto, para 84,9 pontos, sustentado pela melhora na avaliação da situação atual dos negócios, que subiu 3,7 pontos, para 86,1 pontos. Mas o volume de demanda atual recuou 1,9 ponto, alcançando 84,1 pontos, sinal de que, apesar da percepção mais positiva dos empresários sobre o ambiente de negócios, o fluxo de clientes e pedidos ainda não acompanhou esse otimismo.
O Índice de Expectativas (IE-COM) avançou 0,7 ponto, para 85,9 pontos, com melhora em vendas previstas e na tendência dos negócios, o que indica algum alívio no horizonte, mas sem mudança de patamar.
A perspectiva trimestral é ainda mais sóbria. Mesmo com a alta de junho, o ICOM recuou 2,6 pontos na comparação entre o segundo e o primeiro trimestre de 2026, com piora concentrada nas expectativas, que cederam 4,0 pontos. O ISA-COM também registrou queda no trimestre, marcando o sexto trimestre consecutivo de piora. “A oscilação trimestral da confiança do comércio reforça o cenário de dificuldade que o setor tem enfrentado em se consolidar em uma recuperação”, avalia Tobler.
Para o varejo de móveis, a leitura é de que o ambiente não vai se resolver sozinho nos próximos meses, e a conversão segue dependendo de elementos práticos, como crédito acessível, parcelamento compatível com o orçamento e execução qualificada no ponto de venda.
Consumidor estável, mas pessimista sobre o futuro
O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) do FGV IBRE variou apenas 0,1 ponto negativo em junho, para 88,7 pontos, mantendo a quase estabilidade observada no mês anterior. Na média móvel trimestral, avançou 0,2 ponto, para 88,9 pontos. A economista do FGV IBRE, Anna Carolina Gouveia, aponta a tensão que explica esse equilíbrio frágil. “Se por um lado os indicadores de intenção de compra de duráveis e situação financeira futura sugerem um consumidor mais pessimista para os próximos meses, o indicador de situação financeira atual sugere uma melhora na percepção do orçamento do momento. A manutenção de um mercado de trabalho robusto e políticas de desafogamento das dívidas parecem estar influenciando positivamente na percepção atual, mas não são suficientes para reverter o aumento do pessimismo futuro.”
Os dados desagregados deixam essa tensão ainda mais visível. O Índice de Situação Atual (ISA) avançou 0,9 ponto, alcançando 87,0 pontos, em sua terceira alta consecutiva, o maior nível desde outubro de 2014. O indicador de situação financeira atual da família subiu 2,3 pontos, para 79,0 pontos, maior patamar desde abril de 2015, acumulando ganho de 8,9 pontos ao longo de 2026.
Do outro lado, o Índice de Expectativas (IE) caiu 0,9 ponto, para 90,4 pontos, pressionado pela queda de 3,0 pontos no indicador de compras previstas de bens duráveis, que recuou para 80,0 pontos, figurando no menor nível desde outubro de 2025. O indicador de situação financeira futura da família também cedeu 1,7 ponto, para 87,7 pontos.
O recorte por faixa de renda revela uma divisão relevante: consumidores com renda até R$ 4,8 mil apresentaram alta na confiança em junho, enquanto aqueles que recebem acima desse patamar registraram queda.
A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), traz um contraponto relevante a esse cenário. O índice avançou 0,1% em junho, com ajuste sazonal, chegando a 105,5 pontos, o maior nível desde março de 2015.
O destaque do mês ficou por conta do componente Momento para Compra de Bens Duráveis, que saltou 1,2% no mês e 20,3% na comparação anual, puxado pela deflação observada nesse grupo de produtos. Em maio, bens duráveis registraram queda de preços de 0,08%, contra alta de 0,58% do IPCA geral.
De acordo com o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, a queda de preços abriu uma brecha que o público soube aproveitar. “O consumidor percebeu uma janela de oportunidade com a deflação de alguns bens duráveis observada ao longo dos meses, chegando a um patamar mais confortável do que os 4,72% do IPCA geral.” Por outro lado, o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, pondera que a cautela ainda predomina.
“O trabalhador brasileiro reconhece a força do mercado de trabalho no presente, mas a deterioração das expectativas futuras reflete um receio com as viradas de cenário no médio e longo prazo.” Esse dado de bens duráveis é o sinal mais direto que o lojista de móveis tem disponível neste mês, mostrando que o preço favorável já está sendo percebido e aproveitado, mesmo em meio à cautela geral com o futuro.

O equilíbrio entre situação financeira atual e expectativas futuras segue marcando o comportamento de compra das famílias brasileiras | Crédito: Divulgação
Economia cresce, mas em ritmo contido
Divulgado em junho, o Monitor do PIB-FGV aponta crescimento de 0,1% na atividade econômica em abril, na série com ajuste sazonal. Na comparação interanual, a economia cresceu 1,8% no trimestre móvel findo no mês. Segundo a coordenadora da pesquisa, Juliana Trece, o resultado “indica certa resiliência, em meio ao cenário de juros elevado e o aumento do preço do barril do petróleo, como uma das consequências da guerra no Oriente Médio.” O consumo das famílias cresceu 2,6% no mesmo trimestre, o maior patamar desde o início de 2025, impulsionado pelo consumo de serviços. Para o varejo de móveis, o dado confirma que a demanda existe, mas segue seletiva e condicionada ao orçamento disponível.
Para o segundo semestre, o quadro geral é de crescimento moderado. O ambiente macroeconômico deve permanecer desafiador, com Selic projetada em torno de 12,25% ao fim do ano e crédito ainda restritivo, mas a trajetória de queda dos juros, os dados robustos de mercado de trabalho e a melhora na percepção da situação financeira atual abrem espaço para vendas.
Para o lojista, isso significa calibrar o mix com produtos de bom giro e argumentação de valor clara, reforçar as condições de parcelamento e manter a exposição do showroom alinhada a um consumidor que, mesmo presente, decide com mais cautela.
O peso das dívidas na decisão de compra
O endividamento das famílias brasileiras segue batendo recordes e ajuda a explicar por que a conversão no varejo continua difícil. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada em junho pela CNC, mostra que o percentual de famílias com dívidas a vencer alcançou 81,6% em maio, renovando o maior patamar da série histórica, iniciada em 2010.
A parcela que se considera muito endividada também avançou, chegando a 17,0%, o maior índice desde junho de 2024. A inadimplência seguiu a mesma trajetória, subindo para 29,9% em maio, ante 29,7% em abril.
Apesar disso, alguns sinais indicam um ambiente de crédito relativamente mais administrável. O tempo médio de atraso recuou para 65,0 dias, e o percentual de famílias com mais da metade da renda comprometida com dívidas caiu para 18,7%. O comprometimento médio da renda com dívidas, de modo geral, retraiu para 29,3% em maio, o menor patamar desde 2019.
O cartão de crédito segue como a modalidade mais usada pelas famílias, presente em 84,6% dos casos, justamente a linha de crédito com maior taxa de juros: 428,3% ao ano no rotativo.
O recorte por faixa de renda interessa de perto ao lojista que trabalha com públicos distintos. O avanço do endividamento foi mais intenso entre famílias com renda acima de dez salários-mínimos, mas o crescimento da inadimplência se concentrou nas famílias de menor renda, que também foram as únicas a registrar piora na capacidade de quitar contas em atraso na comparação anual.
Na prática, o público de maior renda consegue administrar dívidas crescentes sem comprometer sua capacidade de pagamento, enquanto o de menor renda segue mais exposto. Para o varejo, isso reforça a importância de opções de parcelamento adequadas a cada perfil de cliente, e de cautela redobrada na concessão de crédito para o público mais vulnerável a esse cenário.
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