Confiança do comércio cai e acende alerta no varejo

Mesmo com situação atual ainda favorável para o consumidor, maio mantém o setor em compasso de espera, com demanda presente enfraquecida e cautela para os próximos meses

Publicado em 23 de junho de 2026 | 08:46 |Por: Julia Magalhães

Maio trouxe um sinal de desaceleração para o varejo. Depois do alívio observado no mês anterior, o Índice de Confiança do Comércio (ICOM) do FGV IBRE voltou a recuar, puxado pela piora nas avaliações sobre o momento atual. As expectativas para a demanda futura ficaram praticamente estáveis, mas seguiram em campo pessimista, indicando que o setor ainda não enxerga uma virada consistente no curto prazo.

Para o varejo de móveis, o movimento reforça um cenário em que a conversão depende menos de “humor” e mais de condições objetivas, como crédito, renda disponível e clareza de valor no ponto de venda.

Segundo a economista do FGV IBRE, Geórgia Veloso, a queda reverte o avanço do mês anterior e reflete um ambiente macroeconômico ainda desfavorável ao varejo. O recuo também levou o indicador ao menor nível desde março de 2021. Em maio, a confiança caiu em quatro dos seis principais segmentos pesquisados, com piora concentrada na situação atual.

O Índice de Situação Atual do Comércio (ISA-COM) recuou 4,0 pontos, para 84,0 pontos, menor patamar desde abril de 2021. Os dois componentes acompanharam o movimento: a avaliação da situação atual dos negócios caiu 4,7 pontos, para 82,4 pontos, enquanto o volume de demanda atual recuou 3,2 pontos, para 86,0 pontos.

Já o Índice de Expectativas do Comércio (IE-COM) variou 0,1 ponto, para 85,2 pontos. O indicador de volume de demanda prevista subiu 0,6 ponto, para 86,8 pontos, e o de tendência dos negócios recuou 0,3 ponto, para 84,2 pontos, confirmando uma leitura de estabilidade, porém em nível baixo.

Do lado do consumidor, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) recuou 0,3 ponto em maio, para 88,8 pontos, após duas altas consecutivas. Na média móvel trimestral, houve avanço de 0,9 ponto, para 88,7 pontos, sinalizando que o indicador segue sustentado no trimestre, apesar da acomodação no mês.

De acordo com a economista do FGV IBRE, Anna Carolina Gouveia, a queda foi influenciada pela revisão das expectativas para os próximos meses, enquanto a avaliação do presente permaneceu favorável, mantendo o indicador de percepção da situação corrente no maior nível desde o fim de 2014. Entre as faixas de renda, consumidores que recebem até R$ 4,8 mil indicaram piora das expectativas, reforçando a sensibilidade desse grupo às incertezas do cenário econômico.

O resultado do ICC refletiu movimentos opostos entre seus componentes. O Índice de Expectativas (IE) recuou 1,0 ponto, para 91,3 pontos, enquanto o Índice de Situação Atual (ISA) avançou 0,8 ponto, para 86,1 pontos, maior nível desde dezembro de 2014. Nas expectativas, o indicador de situação econômica local futura caiu 2,6 pontos, para 102,9 pontos, e o de situação financeira futura da família recuou 0,9 ponto, para 89,4 pontos.

Na contramão, o indicador de compras previstas de bens duráveis subiu 0,5 ponto, para 83,0 pontos. Já no retrato do presente, a situação econômica local atual avançou 0,8 ponto, para 95,8 pontos, e a situação financeira atual da família subiu 0,7 ponto, para 76,7 pontos.

No ambiente empresarial, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) ficou estável em maio, em 90,9 pontos. Na métrica de médias móveis trimestrais, o índice recuou 0,5 ponto, na segunda queda consecutiva. Para o pesquisador do FGV IBRE, Aloisio Campelo Jr., a estabilidade sugere um nível de atividade agregado relativamente constante, mas a trajetória dos próximos meses permanece incerta, dependendo, entre outros fatores, dos desdobramentos do conflito no Oriente Médio e de seus impactos sobre a economia brasileira.

Segundo semestre no radar

A leitura de curto prazo, marcada por cautela e demanda enfraquecida no comércio, convive com vetores estruturais que podem sustentar o consumo ao longo de 2026. Levantamento do IPC Maps aponta que a classe C deve liderar, pela primeira vez, o potencial de consumo nacional neste ano, concentrando 36,9% dos gastos previstos. O estudo estima que a economia brasileira movimente R$ 8,6 trilhões em 2026, com crescimento real de 2,3%.

Para o varejo de móveis, o recado é direto: cresce a importância de um mix com boa relação entre valor percebido e preço, além de comunicação e parcelamento compatíveis com um consumidor mais sensível ao orçamento.

O IPC Maps indica que a classe C está presente em praticamente metade das residências brasileiras e movimenta cerca de R$ 2,6 trilhões em despesas ao longo do ano. Em hábitos de consumo, despesas com moradia representam 25,3% dos desembolsos familiares no País, enquanto móveis e artigos do lar, juntamente com eletroeletrônicos, respondem por 3% do orçamento – percentual que tende a oscilar conforme o ciclo de troca e o acesso ao crédito para destravar compras de maior ticket.

Para o varejo de móveis, maio reforça um ponto de atenção: mesmo com o consumidor avaliando melhor o presente, a leitura do comércio mostra enfraquecimento da demanda corrente. O setor entra em um compasso de espera em que a venda tende a ser destravada por elementos práticos.

Na operação, isso significa calibrar o mix com itens de giro e soluções de maior ticket com argumento claro, reforçar exposição de ambientes completos, reduzir fricções na jornada e trabalhar condições de pagamento compatíveis com o orçamento. Em um contexto de cautela, comunicação de valor, previsibilidade de entrega e execução no showroom seguem como diferenciais para sustentar vendas no curto prazo.

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