Confiança do varejo sobe, mas consumidor recua

O ano de 2026 com expectativas em alta no comércio e entre empresários, enquanto famílias seguem cautelosas por juros e endividamento

Publicado em 23 de março de 2026 | 08:25 |Por: Julia Magalhães

O início de 2026 trouxe um desenho conhecido para quem acompanha o varejo: o humor melhora quando se olha para a frente, mas o presente ainda impõe limites. Em janeiro, a confiança do comércio e a confiança empresarial avançaram, puxadas sobretudo pelas expectativas de demanda e vendas nos próximos meses.

Já entre os consumidores, o indicador recuou depois de quatro altas seguidas, refletindo piora na percepção da situação financeira atual das famílias e uma reversão do otimismo para o futuro.

Para o setor de móveis – típico bem durável, de maior ticket e dependente de condições de pagamento – o quadro combina dois sinais relevantes: de um lado, maior disposição do varejo em planejar o primeiro trimestre; de outro, cautela do consumidor, especialmente nas faixas de renda mais baixas. Ainda assim, dentro do ICC, o item de compras previstas de bens duráveis subiu no mês.

Confiança do consumidor

O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) do FGV IBRE caiu 1,8 ponto em janeiro, para 87,3 pontos, voltando ao menor patamar desde outubro de 2025. O movimento veio principalmente das expectativas: o Índice de Expectativas recuou 2,5 pontos, para 91,3 pontos, enquanto o Índice de Situação Atual caiu 0,8 ponto, para 82,6 pontos, na segunda baixa consecutiva.

Segundo a economista Anna Carolina Gouveia, do FGV IBRE, o recuo representa “um movimento de reversão das expectativas para os próximos meses”, com piora influenciada por juros elevados e endividamento, apesar de fatores favoráveis como emprego, renda e alívio de preços.

Nos componentes, chamou atenção a queda do indicador de situação financeira atual da família (menos 2,9 pontos, para 70,1 pontos), enquanto a leitura sobre a situação econômica local atual subiu 1,4 ponto (para 95,5 pontos). Entre as expectativas, o item de situação econômica local futura recuou 5,8 pontos (para 102,2 pontos) e a situação financeira futura da família caiu 4,6 pontos (para 87,8 pontos).

O contraponto para o varejo de bens duráveis apareceu justamente no quesito mais sensível ao setor: as compras previstas de bens duráveis avançaram 3,4 pontos, para 85,5 pontos, o maior nível desde agosto de 2025. O dado sugere que parte do consumo segue no radar, ainda que mais dependente de condições de financiamento e de uma percepção mais segura sobre renda e orçamento doméstico.

Comércio e varejo

O Índice de Confiança do Comércio (ICOM) subiu 3,0 pontos em janeiro, para 91,3 pontos, com alta em quatro dos últimos cinco meses. A melhora esteve concentrada nas expectativas: o Índice de Expectativas do Comércio avançou 4,6 pontos, para 93,7 pontos, na quinta alta consecutiva.

A economista Geórgia Veloso, do FGV IBRE, avalia que a alta foi puxada por um avanço expressivo nas projeções de vendas para os próximos meses, sinalizando otimismo para o início de 2026. Ao mesmo tempo, a demanda atual mostrou pequena recuperação, com o Índice de Situação Atual do Comércio avançando 1,3 ponto, para 89,5 pontos.

Nos detalhes do indicador, a perspectiva de vendas nos próximos três meses subiu 9,3 pontos, para 97,9 pontos, maior nível desde fevereiro de 2020. Já a tendência dos negócios para os próximos seis meses recuou 0,3 ponto, para 89,6 pontos — um lembrete de que o otimismo ainda convive com cautela, em um ambiente de juros altos e endividamento das famílias.

Confiança empresarial e ambiente macro

O Índice de Confiança Empresarial (ICE) avançou 0,5 ponto em janeiro, para 92,5 pontos, na terceira alta consecutiva na métrica de médias móveis trimestrais. A leitura do mês reforça um processo de recuperação iniciado em setembro de 2025, com melhora mais clara no componente de expectativas.

O Índice da Situação Atual Empresarial recuou 0,6 ponto, para 92,8 pontos, permanecendo na faixa estreita observada desde junho do ano passado. O indicador de satisfação com a situação atual dos negócios caiu 0,8 ponto, para 91,3 pontos, e a avaliação do nível de demanda no momento presente recuou 0,3 ponto, para 94,4 pontos.

Já o Índice de Expectativas Empresariais subiu 1,7 ponto, para 92,3 pontos, registrando a maior alta desde agosto de 2024. No recorte, o otimismo com a demanda nos três meses seguintes avançou 2,8 pontos, para 92,7 pontos, e a expectativa sobre a evolução dos negócios seis meses à frente subiu 0,5 ponto, para 92,0 pontos.

Para Aloisio Campelo Junior, pesquisador do FGV IBRE, o resultado indica melhora das projeções de demanda nos próximos meses, com reflexos já perceptíveis nas intenções de contratação ao longo do primeiro trimestre, ainda que as avaliações sobre a situação atual sigam apontando atividade mais fraca do que a observada no mesmo período do ano anterior.

Em análise sobre o que os índices sugerem para 2026, Rodolpho Tobler, do FGV IBRE, destaca que, com a evolução favorável do mercado de trabalho, inflação e endividamento passaram a ter mais relevância para explicar os movimentos do consumidor.

Ele observa uma “janela de fatores” que pode sustentar evolução da confiança ao longo do ano, citando possibilidade de inflação dentro da meta e redução de juros, além de medidas anunciadas que tendem a estimular o consumo – mas ressalta que, por ser ano eleitoral, o ambiente pode trazer maior volatilidade e incerteza.

Consumo e vendas

As sondagens de janeiro reforçam um cenário de ritmo moderado: o varejo projeta melhora no curto prazo, mas reconhece a persistência de restrições do lado das famílias. O recuo do consumidor foi disseminado entre três das quatro faixas de renda e concentrou-se nas famílias de menor remuneração, segundo a leitura da FGV IBRE.

Para bens duráveis, o avanço do item de compras previstas indica que há demanda potencial, mas mais sensível a juros, prazo e condições de crédito. Na prática, a decisão de compra tende a depender do equilíbrio entre orçamento doméstico, percepção de renda e custo do parcelamento.

O que isso significa para o lojista de móveis

Para o lojista, o recado do mês combina oportunidade e prudência. O aumento das expectativas no comércio e entre empresários sugere um ambiente de planejamento mais positivo para o primeiro trimestre, com projeções de vendas em alta.

Ao mesmo tempo, a queda do ICC, puxada por piora na percepção financeira das famílias e por juros elevados, indica que a conversão pode exigir mais trabalho de argumentação e mais flexibilidade comercial.

No ponto de venda, isso costuma se traduzir em três frentes: comunicação clara do valor (durabilidade, garantia, assistência e funcionalidade), estrutura de condições de pagamento compatíveis com o perfil de público e atenção à montagem do mix – equilibrando itens de giro e faixas de preço para diferentes níveis de renda.

O avanço do indicador de compras previstas de bens duráveis ajuda a sustentar a estratégia, mas reforça que o estímulo à compra passa, em grande medida, pela facilidade percebida no parcelamento.

Perspectiva

O começo de 2026 aponta para uma melhora gradual do humor do varejo, sustentada por expectativas, enquanto o consumidor segue oscilando conforme inflação, endividamento e custo do crédito.

A combinação de emprego sustentando renda e alívio de preços pode favorecer o consumo ao longo do ano, mas a manutenção de juros elevados tende a manter a decisão de compra mais seletiva, sobretudo entre famílias de menor renda.

Para o setor de móveis, o termômetro a acompanhar nos próximos meses é se o otimismo do comércio e das empresas ganha tração na demanda efetiva – e se a melhora esperada no cenário macro se traduz em condições financeiras mais favoráveis para o consumidor.

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