Confiança do varejo sustenta projeções cautelosas para 2026
Confiança do varejo cresce pelo 4º mês, mas consumo segue afetado por crédito caro e renda apertada. Expectativas para 2026 são moderadas
Publicado em 26 de janeiro de 2026 | 07:58 |Por: Julia Magalhães

Dezembro marcou o quarto mês seguido de alta na confiança do varejo, com indicadores apontando recuperação gradual no fim de 2025. Levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) mostra leve melhora nas expectativas de consumidores e empresários, enquanto os dados de situação atual seguem pressionados pelo endividamento elevado, inadimplência e crédito caro.
No mercado moveleiro, a percepção é de que o ambiente começa a se estabilizar, mas o consumo de bens duráveis ainda exige cautela.
Expectativas sobem, orçamento segue apertado
O Índice de Confiança do Consumidor (ICC) subiu 0,4 ponto em dezembro, chegando a 90,2 – maior nível desde o fim de 2024. A sequência de altas foi puxada pela melhora nas expectativas: o Índice de Expectativas (IE) avançou 1,4 ponto, para 95,2, enquanto o Índice de Situação Atual (ISA) recuou 1,4 ponto, ficando em 83,4.
Segundo a economista do FGV IBRE, Anna Carolina Gouveia, o consumidor está menos pessimista, amparado por um mercado de trabalho aquecido e aumento do poder de compra. No entanto, as limitações financeiras seguem presentes. O destaque foi o indicador de situação econômica local futura, que cresceu 3,6 pontos e atingiu 108,3.
Em contrapartida, os dados sobre a situação econômica e financeira atual das famílias recuaram, mostrando que a confiança ainda não se traduz em alívio no presente.
O indicador de compras previstas de bens duráveis subiu 0,3 ponto, para 84,9 – número ainda baixo, que sugere foco em itens essenciais.
Comércio aponta retomada gradual
O Índice de Confiança do Comércio (ICOM) avançou 0,2 ponto, para 90,1, também com quatro altas consecutivas. O movimento foi puxado pelo Índice de Expectativas (IE-COM), que cresceu 1 ponto. Já o Índice de Situação Atual (ISA-COM) caiu 0,6 ponto, com piora na percepção dos negócios e leve alta na avaliação da demanda.
Segundo a economista Geórgia Veloso, do FGV IBRE, 2025 foi marcado por um consumo contido, devido aos juros altos e ao endividamento, parcialmente compensado pela melhora no emprego. Para 2026, a expectativa é que o cenário se torne mais favorável, com possíveis alívios na política monetária e mudanças fiscais, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda.
Empresários menos pessimistas
O Índice de Confiança Empresarial (ICE) cresceu 0,3 ponto em dezembro, fechando o ano em 90,8. Embora ainda abaixo da linha de neutralidade (100), o dado indica estabilidade após sucessivas quedas no segundo semestre. O Índice de Expectativas Empresariais (IE-E) teve alta de 0,7 ponto, enquanto o Índice de Situação Atual (ISAE) recuou 0,1 ponto e acumula perdas em seis dos últimos sete meses.
Dentre os componentes, o indicador de otimismo com a demanda nos três meses seguintes subiu 2,6 pontos. A expectativa sobre os negócios nos próximos seis meses, por outro lado, caiu 1,3 ponto, sinalizando cautela no curto prazo.
Incerteza menor, mas ambiente ainda exige atenção
O Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) caiu 3,1 pontos, chegando a 104,5 – abaixo dos 110 pontos pelo quarto mês seguido. A queda foi puxada pelo componente de Mídia, que mede a frequência de notícias com incerteza econômica.
Segundo Anna Carolina, a redução da incerteza ao longo de 2025 foi influenciada pela previsibilidade da política econômica e pelo recuo da inflação. Para 2026, no entanto, questões políticas e fiscais podem voltar a pressionar o ambiente.
Black Friday e Natal sustentam fim de ano
As promoções de fim de ano ajudaram a manter o fôlego do varejo no último bimestre. O Índice Cielo do Varejo Ampliado apontou alta de 1,9% nas vendas da Black Friday frente a 2024, com destaque para o e-commerce, que cresceu 16%. As lojas físicas apresentaram leve retração. Estima-se que a data tenha movimentado cerca de R$ 5,4 bilhões.
No Natal, o crescimento estimado foi de 2,1% no faturamento, além de 5% de aumento nas vagas temporárias. Ainda assim, os dados ajustados pela inflação mostram que o varejo teve retração real de 1,7% em novembro, indicando que as promoções não foram suficientes para neutralizar o impacto dos preços elevados e do crédito restrito.
Projeções para o varejo em 2026
O varejo brasileiro encerrou 2025 com desempenho modesto, sustentado por datas sazonais e leve recuperação da confiança. O BBVA Research projeta crescimento do PIB em torno de 2,2% para 2026. Já o Indicador de Tendências de Consumo e Varejo (ITCV) estima alta de 2,08% no setor.
A expectativa é de um ambiente macroeconômico mais favorável, com queda gradual dos juros e estímulos ao consumo. O primeiro trimestre tende a manter ritmo moderado, com vendas nominais positivas, mesmo ajustadas pela inflação.
Sinais de melhora no mercado moveleiro
No varejo de móveis e eletrodomésticos, a expectativa é de que a combinação entre crédito mais acessível e maior estabilidade da renda impulsione uma retomada mais consistente. O desempenho seguirá condicionado ao controle da inadimplência e à confiança do consumidor.
A leve alta na intenção de compra de bens duráveis pode sinalizar um começo de ano mais aquecido para o setor. A aposta dos lojistas está em estratégias de crédito, condições de pagamento facilitadas e calendário promocional.
As campanhas de verão e datas como o Dia do Consumidor, em março, ganham força como oportunidade para alavancar as vendas no primeiro trimestre.
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