Indústria moveleira segue em alta no faturamento e produção em queda
Pressão por juros, importações e barreiras externas afetam desempenho da Indústria moveleira ao longo do ano, demonstra nova edição da “Conjuntura de Móveis”
Publicado em 21 de outubro de 2026 | 08:00 |Por: Thiago Rodrigo

A Indústria moveleira chega aos últimos meses de 2026 diante de um cenário marcado por sinais distintos tanto no mercado interno quanto externo. Segundo os números da “Conjuntura de Móveis – Edição Setembro 2026”, estudo elaborado pelo Iemi com exclusividade para a Abimóvel (Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário), a produção de móveis e colchões no país cresceu 5,3% na passagem de junho para julho deste ano. No acumulado de janeiro a julho, entretanto, a produção recuou 2,3%, enquanto o faturamento avançou 3,4% na comparação com o mesmo período de 2025.
Somente em julho, a receita cresceu 6,2% frente ao mês anterior e, no acumulado dos últimos 12 meses, registra alta de 2,8%. A combinação mostra que o crescimento do faturamento esteve menos associado à expansão da atividade e mais à formação de preços, à composição das vendas e ao maior tíquete médio dos produtos comercializados. Parte desse comportamento reflete as pressões acumuladas sobre a estrutura de custos da cadeia, envolvendo matérias-primas, componentes, energia, logística, mão de obra e despesas financeiras, tributárias e fiscais. No entanto, mudanças no mix de produtos também contribuíram para sustentar o faturamento em um ambiente no qual os volumes seguem pressionados.
“O setor conseguiu manter crescimento nominal mesmo diante da retração do volume produzido, refletindo um cenário de demanda ainda moderada e de cautela por parte da indústria. A retomada dos volumes dependerá da evolução das condições econômicas e da recuperação gradual do consumo e dos investimentos. Nesse contexto, medidas que contribuam para a melhoria do ambiente de negócios, o acesso ao crédito, a redução gradual do custo financeiro e o fortalecimento dos mercados imobiliário e habitacional poderão favorecer a retomada da atividade. A combinação desses fatores será importante para ampliar a utilização da capacidade instalada, estimular novos investimentos, preservar e ampliar postos de trabalho e, consequentemente, contribuir para a geração de renda e para uma trajetória mais consistente de crescimento da atividade produtiva”, avalia Cândida Cervieri, diretora-executiva da Abimóvel.
Crédito continua limitando a demanda
O comportamento do varejo ajuda a dimensionar essa diferença entre valor e volume. Entre janeiro e julho, as vendas no varejo doméstico caíram 2,4% em número de peças. No mês de julho, porém, houve avanço de 2,6% frente ao mês anterior, enquanto em 12 meses, o varejo ainda registra queda de 3,4% em volume.
O movimento, no entanto, não esteve acompanhado por uma pressão particularmente elevada dos preços do mobiliário. Em agosto, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do segmento registrou alta de 0,65% no mês, acumulando 1,50% no ano e 2,75% em 12 meses. No mesmo período, o IPCA geral apresentou deflação de 0,32% em agosto, alta de 3,11% no ano e de 4,22% em 12 meses. Para a Abimóvel, isso reforça a leitura de que o principal obstáculo à demanda está mesmo nas condições de consumo e financiamento.
– Produção de móveis recua no primeiro semestre
“Móveis são bens duráveis, normalmente de maior tíquete e com forte participação do parcelamento na decisão de compra. Com juros elevados, o consumidor enfrenta prestações mais caras e menor espaço para assumir compromissos financeiros de médio prazo, adiando a renovação de dormitórios, cozinhas, salas, ambientes de trabalho e outros espaços”, explica Cândida.
A expectativa para o restante de 2026, portanto, ainda é de cautela. Black Friday e Natal podem produzir algum estímulo sazonal, mas dificilmente serão suficientes, isoladamente, para compensar a retração observada ao longo do ano. Com a taxa básica de juros, a Selic, ainda em 13,75% ao ano, a velocidade de transmissão dos cortes de juros para o crédito, que não é automática, será determinante para uma recuperação mais consistente.
Já para 2027, a perspectiva melhora se a redução dos juros vier acompanhada de recuperação da renda, da confiança e do mercado imobiliário. Nesse contexto, a Abimóvel também considera estratégica e vem atuando na busca pela inclusão do setor de móveis nas políticas habitacionais, associando o acesso à moradia à sua efetiva ocupação e equipagem, especialmente no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida.
Tarifas redesenham o mapa das exportações
Se o mercado doméstico enfrenta limitações, o ambiente externo tornou-se igualmente desafiador. Entre janeiro e agosto, as exportações brasileiras de móveis e colchões recuaram 6,7%, passando de US$ 506,0 milhões no mesmo período de 2025 para US$ 471,9 milhões em 2026, revela o estudo. A retração foi pressionada especialmente pelos Estados Unidos, onde os embarques de móveis e colchões brasileiros diminuíram 39,9% no período. Excluído o mercado americano, entretanto, as vendas externas cresceram aproximadamente 5,5%, indicando avanço em outros destinos, embora ainda insuficiente para compensar a retração do principal parceiro comercial do setor.
A pressão aumentou com as novas medidas comerciais adotadas pelo governo americano ao final do mês de julho. Diferentes categorias de móveis brasileiros passaram a estar sujeitas a sobretaxas que podem chegar a 37,5% adicionais às tarifas ordinárias de importação. Canadá e México também adotaram medidas que elevaram o custo de entrada de diferentes produtos brasileiros na América do Norte.
O efeito vai além da margem do fabricante. Tarifas mais elevadas alteram negociações entre exportador, importador e varejo, podem chegar ao consumidor final e reduzem a competitividade do produto brasileiro, interferindo em contratos, volumes e decisões de compra. Segundo estimativas acompanhadas pelo setor, mais de 10 mil postos de trabalho foram afetados desde o anúncio das primeiras sobretaxas, em 2025. A Abimóvel vem atuando na defesa das condições de acesso aos mercados e apresentou recentemente manifestação ao governo canadense no processo de salvaguarda, acompanhando a evolução das medidas junto às autoridades competentes.
Diversificação passa a ser estratégica
A agenda para 2027 e 2028 deverá, portanto, ser orientada pela diversificação geográfica e pelo fortalecimento da atuação internacional da indústria brasileira, sem perder os destinos já consolidados. Os Estados Unidos permanecem estratégicos, pela escala e pela presença construída pela indústria brasileira ao longo de 25 anos, com uma ampla rede de parceiros comerciais. Paralelamente, América Latina e Central, Europa, Oriente Médio, África e Índia estão no radar para novas oportunidades. Na América Latina, o Brasil ocupa uma posição de destaque como maior produtor de móveis da região, o que abre espaço para aprofundar sua atuação regional. A prioridade está em mercados como Argentina, Chile, Peru, Uruguai, Colômbia e Panamá, fortalecendo canais de distribuição, relacionamentos comerciais e geração de negócios.
Na Europa, o setor já conta com presença estabelecida em países como Espanha, Portugal, França, Itália, Inglaterra, entre outros mercados, e a estratégia é identificar novas oportunidades de crescimento, canais e segmentos com potencial para os produtos brasileiros. A definição das prioridades considera, em cada país, o potencial de demanda, ambiente competitivo, barreiras tarifárias e regulatórias, logística, canais de distribuição e condições de acesso. “Essa inteligência deverá ser fundamental para direcionar as ações de prospecção e promoção internacional, especialmente em mercados onde a evolução de acordos comerciais possa abrir novas oportunidades”, observa a diretora–executiva da Abimóvel.
Essa agenda, inclusive, integra o Projeto Brazilian Furniture, em parceria com a ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos), para o ciclo 2027–2028, com foco em inteligência comercial, estudos de mercado, prospecção e promoção internacional. O objetivo é concentrar esforços onde exista maior potencial de negócios e transformar oportunidades em resultados concretos para as empresas brasileiras.
Importações avançam em velocidade superior ao mercado
Entre janeiro e agosto, as importações do setor alcançaram US$ 265,9 milhões, avanço de 40,8% na comparação com os US$ 188,9 milhões registrados no mesmo período de 2025. A China respondeu por 73,9% do total. O ritmo de crescimento é muito superior ao observado no consumo doméstico e na própria produção brasileira, indicando ganho de espaço dos produtos importados no mercado nacional. O cenário internacional adiciona um risco para 2027. À medida que grandes economias reforçam tarifas, salvaguardas e outros mecanismos de proteção, produtos originalmente destinados a esses mercados podem ser redirecionados para países com menores barreiras de entrada, aumentando a pressão competitiva sobre a indústria local.
“Não se trata de fechar o mercado brasileiro, mas de garantir condições justas e equilibradas de concorrência e fortalecer a competitividade da indústria brasileira”, afirma Cândida Cervieri. Para a Abimóvel, isso passa pelo monitoramento de preços, origens e volumes importados, pelo cumprimento das normas técnicas, tributárias, ambientais e de segurança e, quando houver fundamentos técnicos, pela utilização dos instrumentos de defesa comercial.
Ao mesmo tempo, parte da resposta precisa vir do fortalecimento da própria base produtiva. Nesse sentido, a Abimóvel atua de forma integrada por meio de dois projetos complementares: o PDCIMob (Projeto de Desenvolvimento, Competitividade e Integração da Indústria do Mobiliário), em conjunto com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Promoção de Exportações e Investimentos), com foco na expansão dos pequenos negócios; e o Brazilian Furniture, em parceria com a ApexBrasil, que amplia a inserção internacional, a promoção e as exportações. Juntos, os projetos fortalecem a indústria brasileira e conectam competitividade, desenvolvimento e internacionalização.







