Sustentabilidade industrial abre mercados e reduz custos

Reportagem mostra como a sustentabilidade reduz custos, evita multas, gera lucro, alcança novos clientes e melhora a imagem da empresa

Publicado em 28 de outubro de 2019 | 16:26 |Por: Everton Lima

Em 1992, durante a “Eco-92”, o Brasil recebeu líderes de todo o mundo para debater assuntos relacionados à ecologia. Desde então, o tema nunca mais saiu do radar de governos e negócios. Aliás, alguns empreendimentos têm se esforçado para se tornarem “empresas sustentáveis”.

A motivação vem de vários benefícios que a marca poderá ter. O mais imediato deles é melhorar as relações com o consumidor, ganhando novos mercados. De acordo com uma pesquisa realizada pela Opinion Box (2019), 55% dos entrevistados disseram que dão preferência por marcas que demonstram preocupação com o meio ambiente.

Ademais, 52% deixariam de comprar de uma marca que polui o meio ambiente. 53% não consomem de empreendimentos envolvidos com trabalho escravo.

Para Orlando de Melo Conte, Engenheiro de Segurança do Trabalho e Meio Ambiente da Bartira, ter um posicionamento sustentável é muito importante. “Posicionar-se perante a sociedade como uma empresa sustentável, gera valor agregado ao produto — além de retornos financeiros nos processos de fabricação”, explica.

Conte destaca algumas iniciativas que a marca tem em seus processos. “A Bartira mantém parceria com o programa Reviva, da Via Varejo. Ela realiza doações de espelhos provenientes do processo de fabricação dos seus móveis para o programa, fazendo a coleta seletiva e destinando adequadamente todos os resíduos gerados — parte deles são utilizados para geração de energia”, explica.

O engenheiro ainda afirma que a sustentabilidade entra em outros processos, como o treinamento dos funcionários da fábrica. “A Bartira também faz treinamento interno periódico com seus colaboradores por meio de Diálogo de Segurança, Via Líder, SIPAT e reunião de resultados com temas que abordam o meio ambiente.”

Além disso, toda a matéria-prima usada pela empresa (MDP) vem de fornecedores com certificado internacional FSC (Forest Stewardship Council – Conselho de Gestão Florestal).

Sustentabilidade é fundamental para exportar

A coordenadora de projetos da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário (Abimóvel), Paula Leal, conta que “os empresários estão sendo sensibilizados de que esse olhar sustentável gera uma gestão mais eficaz dos recursos, permite com que as empresas se tornem mais competitivas no Brasil e em novos nichos de mercados e se alinhem com as principais tendências de consumo. Grande parte das empresas estão mudando seus processos para se adequarem às condições dos mercados”.

Aliás, a Abimóvel tem se esforçado para conscientizar o mercado moveleiro sobre a importância do tema. Em parceria com a Apex-Brasil, a associação desenvolveu estudos que estão pautando iniciativas para aperfeiçoar o modo como as empresas lidam com o tema. Um dos frutos desses estudos é o Programa de Sustentabilidade do Setor do Mobiliário (SIMB).

Paula afirma que essas ações são essenciais para as companhias que desejam exportar. “Os mercados foco de exportação do Projeto Brazilian Furniture possuem critérios de sustentabilidade bastante maduros. Então, o Programa SIMB surgiu como uma ferramenta para auxiliar as empresas nacionais a se adequarem às exigências internacionais e se alinharem às tendências de consumo das novas gerações. A sustentabilidade é um caminho sem volta e entendemos que as empresas precisam encará-la para se manterem competitivas.”

O SIMB oferece às empresas uma plataforma na qual elas podem realizar um autodiagnóstico e avaliarem a qualidade de sua gestão ambiental. O resultado poderá pautar mudanças capazes de abrir novos mercados aos empreendimentos.

Ecologia gera economia

A Cozinhas Itatiaia tem objetivos claros quando o tema é sustentabilidade, principalmente em relação ao uso de água. Wellington Wagner Bernardes, gerente de marketing da empresa, fala que o fato dos recursos hídricos estarem cada vez mais escassos motivou a empresa a desenvolver soluções para consumir menos água em seus processos.

“Buscamos alternativas para reduzir o consumo de água nos processos de produção, como um circuito fechado nas linhas de tratamento de superfície das chapas de aço e também a captação da água de chuva. Além disso, propomos soluções inovadoras como a fertirrigação de efluentes sanitários. Em uma estação de tratamento, os efluentes são inicialmente tratados para depois serem lançados no solo. O solo, por sua vez, ficará rico em nutrientes e ideal para o cultivo de vegetação de pastagem. Com essa postura responsável e assiduamente preocupada com o meio ambiente, a Itatiaia conseguiu reduzir seus custos operacionais e manter um sistema ecoeficiente”, revela.

Unsplash. Imagem ilustrativa

Sustentabilidade é tema dentro do mercado moveleiro

Empresas mudam processos em busca de sustentabilidade

Nas duas fábricas da empresa, essas iniciativas foram aplicadas — em uma delas, desde a sua inauguração. “Os parques fabris, Ubá (MG) e Sooretama (ES), contam com um circuito fechado nas linhas de tratamento de superfície. A fábrica em Sooretama tem esse processo desde a sua fundação, em 2013. Recentemente, começamos o processo de reutilização da água também na fábrica de Ubá. Com os novos equipamentos, as linhas de tratamento de superfície (Imersão e Aspersão) trabalham em um circuito fechado. O objetivo é fazer a reciclagem das águas nas próprias linhas, reduzindo o consumo em 80% se comparado ao antigo sistema.

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Mesmo em tempos de crise, vale a pena investir em sustentabilidade

O professor Rafael Perini, do curso de Administração do Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG), explica que os investimentos em sustentabilidade trazem grandes retornos às empresas. “É claro que, em momentos de crise, qualquer investimento deve ser detalhadamente analisado, mas o que é possível afirmar é que os investimentos em ações de sustentabilidade podem ter um retorno mais eficiente do que o imaginado, já que, em suma, grande parte das ações que são tomadas para reduzir o impacto dos processos no meio ambiente tem como benefício não somete a redução do dano ambiental em si, mas também a redução em custos fixos e operacionais.”

“Em alguns casos, após o prazo de payback, uma redução de 60 a 70% nos custos com energia” Rafael Perini, professor da FSG

Como exemplo, Perini cita a modernização dos projetos de iluminação. “Atualmente, existe um avanço muito grande na substituição em algumas plantas fabris da fonte de energia para energia fotovoltaica — o que, em um primeiro momento, pode causar um grande impacto em função do investimento inicial, mas a longo prazo o retorno é garantido, proporcionando, em alguns casos, após o prazo de payback, uma redução de 60 a 70% nos custos com energia e também colaborando com a não utilização de energia convencional que muitas vezes é produzida por meios que impactam no meio ambiente.”

Paula, da Abimóvel, chama a atenção para a cadeia produtiva gerada pela sustentabilidade. “A sustentabilidade cria demandas para atender às necessidades de toda uma cadeia. Para as empresas do Projeto Brazilian Furniture, faz parte da estratégia do Programa SIMB firmar parcerias de serviços que ofereçam soluções, com o objetivo de auxiliar as empresas a evoluírem de forma prática e eficaz em sua gestão e indicadores.”

Iniciativas premiadas

Além dos bons resultados, as iniciativas da Cozinhas Itatiaia foram reconhecidas com o Prêmio Design Sustentável — um dos pontos altos da Femur, feira realizada no polo moveleiro de Ubá (MG). “Para a Itatiaia, carregar conceitos sustentáveis e ecoeficientes é uma postura que transmite nossos valores e ideais, como a preocupação que temos com a sociedade e o meio ambiente. Em todas as nossas participações no Prêmio Design Sustentável, a Itatiaia teve o objetivo de estimular a criatividade e o desenvolvimento do design sustentável, apresentando para a população produtos e processos que se destacam pela consciência ambiental, utilizando um conceito de P+L (produção limpa)”, explica Bernardes.

“Esse prêmio valoriza as empresas que já compreenderam seu papel dentro do cenário de responsabilidade socioambiental. Fomenta e expõe as boas práticas de sustentabilidade que vem sendo desenvolvidas no Polo Moveleiro de Ubá”

Thainara Furforo, analista administrativa da Simbiose, uma das empresas responsáveis pela premiação, explica a importância do prêmio.  “O Prêmio tem o comprometimento de ampliar a visão sobre a temática ambiental na indústria. Vem ao longo dos anos demonstrando que meio ambiente vai muito além do compliance e dos atendimentos a obrigações e regularizações. Esse prêmio valoriza as empresas que já compreenderam seu papel dentro do cenário de responsabilidade socioambiental. Fomenta e expõe as boas práticas de sustentabilidade que vem sendo desenvolvidas no Polo Moveleiro de Ubá.”

Créditos: Divulgação Femur 2018

Femur 2018 -Prêmio Design Sustentável

Em 2018, o projeto desenvolvido pela Cozinhas Itatiaia (primeiro à esquerda) ficou com o 2º lugar do Prêmio Design Sustentável

Empresas podem ser multadas, caso prejudiquem a natureza

A advogada, Luciana Moralles, do escritório Finocchio & Ustra Sociedade de Advogados, explica que a penalidade mais comum para as empresas que descumprem a legislação ambiental é o pagamento de multas. Ela afirma que o mesmo negócio pode ser processado, ao mesmo tempo, em três esferas: cível, criminal e administrativa. Dra. Luciana esclarece que a legislação brasileira é moderna, mas que os órgãos de fiscalização ambiental nem sempre têm estrutura para fazer cumprir a lei.

Sendo assim, a advogada dá uma dica para os empresários que querem ter certeza de que estão cumprindo com suas obrigações. “A melhor forma de se verificar se uma empresa está em desconformidade com as normas ambientais é através de uma due diligence ambiental. Muitas vezes, há um total desconhecimento da gestão da empresa no tocante ao não cumprimento da legislação e consequente exposição há risco econômico, social ou ambiental. A dificuldade em se saber se a integralidade das obrigações e licenças ambientais estão sendo cumpridas é uma realidade, face ao número exagerado de normas legais e órgãos competentes para fiscalizar a mesma atividade”.

No entanto, ela reconhece que as companhias estão se esforçando para criar um ambiente de produção menos agressivo à natureza. “Hoje em dia, é facilmente perceptível na iniciativa privada um controle maior entre as marcas e cobrança de que parceiros estejam em compliance ambiental, uma vez que as empresas não querem ter sua atividade conectada com degradadores do meio ambiente ou comprar produtos que sejam produzidos de forma ilegal. A gestão ambiental dentro dos negócios e controle dos parceiros/fornecedores são induzidos pelas normas de responsabilidade civil solidária em matéria ambiental.”


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