Lojista 430

31 Móbile Lojista 430 | Julho 2026 | Ano XLIV A JORNADA QUE JÁ MUDOU O consumidor brasileiro está cada vez mais digital em sua rotina de compras. Pesquisa da CNDL/SPC Brasil, com dados coletados em junho de 2025, mostra que 71% dos consumidores compram on-line mensalmente e que descrições detalhadas dos produtos aparecem entre os principais critérios de escolha de uma loja virtual, citadas por 30% dos entrevistados. Em um ambiente onde a IA filtra produtos com base na qualidade das informações disponíveis, a loja que não cuida do cadastro dos seus produtos está em desvantagem antes mesmo de o consumidor chegar. Esse comportamento é ainda mais acentuado na etapa de pesquisa. Levantamento do Consumer Sentiment Index da Criteo, publicado em 2025, mostra que mais da metade dos consumidores globais já recorre a ferramentas de IA para comparar opções e marcas, enquanto 39% as utilizam para encontrar os melhores preços ou descontos. A IA passou a funcionar como uma etapa autônoma da jornada de compra, anterior à visita ao site ou à loja. O QUE A IA RECOMENDA E POR QUÊ O critério das recomendações de IA é diferente dos algoritmos de busca tradicionais. Não se trata apenas de palavras- chave ou volume de tráfego. Os modelos de linguagem aprendem a partir de dados estruturados, avaliações e descrições detalhadas, e a lógica é direta: quanto mais completo o cadastro de um produto, mais elementos a IA tem para incluí-lo numa recomendação. Visibilidade junto à IA não é automática. Ela precisa ser construída, e o ponto de partida é uma presença digital legível para máquinas: imagens com boa resolução, especificações completas, dimensões, materiais e avaliações reais. O produto cadastrado apenas com nome e preço oferece pouco para trabalhar. O relatório The State of Commerce 2026, da Signifyd, reforça essa leitura ao documentar que o tráfego gerado por IA cresceu 4.700% entre 2024 e 2025 no e-commerce global. O número pode parecer abstrato, mas traduz uma realidade concreta de que uma fatia crescente dos consumidores está chegando às lojas digitais a partir de recomendações de assistentes de IA, não de buscas tradicionais. Quem não está visível nesse canal está perdendo tráfego que sequer sabe que existe. O AGENTIC COMMERCE E O PRÓXIMO PASSO Há um estágio além da recomendação, e ele já começa a se desenhar. Chama-se agentic commerce, modelo em que assistentes de IA não apenas sugerem produtos, mas conduzem ativamente a jornada de compra em nome do consumidor. Pesquisam opções, comparam preços, verificam disponibilidade e, em alguns casos, concluem a transação. O consumidor delega à IA parte das decisões que antes tomava sozinho. No painel “Agentic Commerce: quem não é visto pela IA também não é comprado”, realizado durante o Digitail 2026, em São Paulo, o sócio-diretor da Gouvêa Consulting, Roberto Wajnsztok, colocou o ponto com precisão. “Não é só o caso de você inovar como empresa. Seu cliente está inovando no uso da IA. Quando falamos de agentes autônomos, é uma dinâmica dupla, está nos dois lados do jogo.” A transformação não espera que o varejo esteja pronto. Exemplos práticos desse movimento já aparecem em grandes redes de outros segmentos. A Leroy Merlin oferece um serviço de orçamento via WhatsApp em que o cliente envia listas de compras por texto, áudio ou foto e recebe sugestões de produtos em minutos. A IA entende sinônimos, jargões e descrições informais, o que reduz a fricção especialmente para quem não domina vocabulário técnico. No Grupo Boticário, o assistente virtual baseado em IA já registra aumento de conversão superior a 40% nas interações em que atua. São cases de outros setores, mas que apontam o caminho que o varejo como um todo está percorrendo, incluindo o de móveis. O diretor de e-commerce da Leroy Merlin, Sérgio Ferraz, foi direto ao falar sobre o tema no Digitail 2026. Para ele, a mágica da IA é que ela não é exclusiva de uma área ou uma pessoa. “Precisamos provar para o vendedor que ela não vai tomar o lugar dele. A ideia é usar a IA para melhorar, desafogar, facilitar. A adoção só vai funcionar quando a gente conseguir que todo mundo use.” O consumidor que chega a uma loja de móveis já passou por uma etapa de pesquisa assistida por IA. Chegou com referências, comparações e, muitas vezes, com uma decisão semi-formada. O vendedor que entende esse contexto tem muito mais chance de converter do que aquele que começa do zero. A CONFIANÇA AINDA NÃO É PLENA, E ISSO É UMA JANELA O Consumer Pulse, da Bain, aponta que o consumidor brasileiro ainda não confia plenamente na IA para decisões de compra de alto valor, e móveis se enquadram exatamente nessa categoria. O Consumer Sentiment Index da Criteo (2025) ajuda a entender por quê – 34% dos consumidores pesquisam on-line antes de comprar em lojas físicas, enquanto 29% fazem o caminho inverso, visitam a loja e fecham a compra no ambiente digital. A loja física ainda tem papel decisivo na etapa final. O que muda é o que acontece antes, quando a descoberta, a comparação e a formação da intenção de compra passam cada vez mais pelo digital e, dentro do digital, cada vez mais pela IA.

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