Lojista 429
35 Móbile Lojista 429 | Junho 2026 | Ano XLIV anos de história em Ubá –, mostra o que a frieza dos dados não captura. Quando a água começou a transbordar do leito do rio, a primeira decisão foi evacuar. A segunda, a mais difícil, foi escolher o que salvar antes que a enchente chegasse ao primeiro pavimento. “Não teria tempo de subir com muita coisa para o segundo andar, então teria que escolher o que seria salvo”, lembra. A estrutura da loja na Beira Rio foi levada: elétrica, hidráulica, teto em gesso, mobiliário, decoração. O que restou no primeiro pavimento foi perdido. A área, segundo Lelinha, ainda está em estado de devastação, sem previsão de recuperação pelo poder público. A decisão de mudar para um imóvel na rodovia, próximo a outras lojas de móveis, foi parte necessidade, parte estratégia. “Continuamos com nossos clientes e estamos atendendo um público que não ia até o centro de Ubá”, diz. O que sustentou a retomada não foi crédito emergencial nem obra pública. Foram os fornecedores “sempre muito solidários, cada um ajudando como podia” e a credibilidade construída em duas décadas de atendimento. Mesmo sem loja física no período mais crítico, Lelinha atendeu clientes que também tinham perdido tudo, fechou pedidos e cumpriu prazos. “Foi essa confiança que nos permitiu recomeçar”, resume. A experiência também mudou a forma como a empresária pensa a gestão do negócio. Planos de contingência, segurança das informações da empresa e fortalecimento das relações com fornecedores estratégicos passaram a fazer parte das prioridades cotidianas – não mais como prevenção improvável, mas como parte da rotina. “Depois da enchente, entendemos ainda mais a importância de estar preparado para situações que muitas vezes parecem improváveis”, diz. O conselho que ela deixa para outras lojistas é investir em relacionamentos sólidos e ter capacidade de adaptação. “Nem sempre conseguimos controlar o que acontece, mas podemos escolher como reagir e seguir em frente.” O QUE A ÁGUA DEIXOU EXPOSTO O que a enchente revelou vai além dos danos físicos. O professor José Carlos, da FIA Business School, resume o diagnóstico estrutural de que o desenvolvimento territorial hoje não pode mais ser pensado sem gestão de risco climático. Ubá construiu um dos mais expressivos polos moveleiros do País com uma lógica de crescimento que funcionou por décadas. A tragédia de fevereiro mostrou que essa mesma concentração, sem planejamento urbano preventivo e infraestrutura adequada, transforma a força em vulnerabilidade. Drenagem, mobilidade, logística – os problemas já existiam antes de fevereiro. “A lógica de épocas anteriores era criar polos industriais próximos a rios, áreas baixas e corredores logísticos”, explica o professor. Com as mudanças climáticas e a intensificação dos eventos extremos, boa parte da infraestrutura permaneceu baseada em parâmetros antigos de ocupação e drenagem. A enchente apenas tornou impossível ignorar o que já estava lá. Divulgação A empresária Lelinha, da A3 Móveis, reconstruiu o negócio apoiada em 20 anos de credibilidade com clientes e fornecedores “Talvez o maior aprendizado tenha sido perceber que o patrimônio mais valioso de uma empresa não está apenas na estrutura física ou nos produtos, e sim na credibilidade construída ao longo dos anos.” Lelinha Marangon proprietária da A3 Home Design
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