Entrevista: Mário Gazin fala sobre sua trajetória

Empresário afirmou que investe em tecnologia, além de contar como foi deixar que outras pessoas assumissem papéis de destaque na empresa

Publicado em 27 de janeiro de 2020 | 16:00 |Por: Everton Lima

O empresário Mário Gazin estava sentado na primeira fila do local onde palestraria, na última sexta-feira (24), no Expotrade de Pinhais, na grande Curitiba, quando a equipe de jornalismo do eMóbile pediu uma entrevista. Imediatamente, o senhor de cabelos grisalhos e sorriso largo aceitou nosso convite.

A forma simples de Mário Gazin já é conhecida pelos seus funcionários. No estande que a Gazin manteve na Home Show, todos os funcionários eram só elogios para “o homem”. Ao eMóbile, o fundador de uma das marcas de varejo mais importantes do país falou sobre as mudanças vividas nas últimas décadas, sobre a economia brasileira, gestão de negócios e, claro, sobre o futuro de sua empresa.

Mário Gazin também demonstrou que, ao contrário de muitos idosos, ele não tem nenhum problema com o modo com o qual os jovens pensam. Pelo contrário, o empresário reconhece que é preciso abrir espaço para o novo.

Leia a entrevista com o empresário Mário Gazin

eMóbile: No ano passado, o país viveu um ano de retomada econômica. Como foi o 2019 da Gazin?

Mário Gazin: 2019 foi um dos melhores anos nesses 53 anos de história da Gazin. Não gosto muito de falar em crescimento de vendas, mas sim, em crescimento de patrimônio. Às vezes se vende muito e o patrimônio não cresceu. Eu, como dono, gosto de olhar o patrimônio.

Houve anos, há muito tempo, que crescemos mais em patrimônio. Em uma empresa que vende bem, mas o patrimônio não cresce e o lucro é muito alto, tudo indica que o dono está velho e ele quer sair do negócio. Vejo isso como experiência mesmo. No caso da Gazin, eu já saí fora mesmo, então, não é esse o caso. Nós temos que brigar e a empresa tem que dar lucro. Em 2019, tivemos 7,5 pontos de lucro e crescimento de 23,77%. Foi o maior lucro da nossa história. Nossa meta era crescer até 18% e chegamos a 23,77%. Chamo isso de PIB Gazin.

Se olhamos isso, vemos com bons olhos, porque com 4,5 anos, dobra-se o patrimônio. Quando eu entreguei a empresa, eu dobrava em cinco anos e o pessoal agora tem feito melhor do que eu. Então, parabéns a quem está à frente. Esse é o caminho. Não adianta ter o melhor lucro do mundo e um crescimento muito baixo ou ainda um lucro muito baixo e um crescimento alto. Tudo isso pode ser em vão. O bom é ter um lucro normal, na média.

eMóbile: Muitas empresas acabam ficando reféns do dono e todas as decisões ficam concentradas nesse líder. O Sr. disse que, nesse sentido, já soltou as rédeas da Gazin. Essa decisão foi difícil?

Mário Gazin: Tudo é difícil. Quando a gente casa, a nossa mãe deixa de fazer nossa comida, lavar a nossa roupa. Depois que a gente casa, a comida fica diferente, a casa é diferente. É um mundo que muda na nossa vida. Por isso que eu acredito que a gente não pode criar uma empresa para a nossa família, tem que criar uma empresa para os nossos clientes. Eu vou lidar bem com esse freguês enquanto a nossa idade for mais ou menos a mesma, depois é preciso que ele tenha um jovem atendendo ele.

Arquivo pessoal

Mario Gazin jovem

Mário Gazin em sua adolescência.

Eu já passei por cinco gerações e na minha empresa, as gerações demoravam mais tempo para acabar e surgir uma nova. Hoje não, estão ficando 10 a 12 anos. Essa troca de geração é algo para o qual os brasileiros ainda não têm olhado com muito carinho. Veem como obrigação. Como eu, com 70, vou entender meu filho com 37 anos? É a coisa mais difícil do mundo. Eu tenho uma filha com 50 anos. Nós nos entendemos bem. Não há muito problema. Porém, o mundo dele não é o que eu vivi. É outro. Muitos donos de empresas não querem aceitar os jovens.

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eMóbile: O Sr. acredita que a indústria moveleira está atenta à inovação?

Mário Gazin: Ano passado, quando voltei dos Estados Unidos, pensei: quero montar um laboratório. Vou contratar 17 profissionais. E, realmente, montamos o laboratório e não tem jeito de viver sem os profissionais de tecnologia. Hoje tem que ter inovação em tudo. Não dá mais para ficar para trás.

Uma mesa nasceu com quatro pés e vai ter um tampo em cima, mas a cor, a borda tem que ser diferente. Tem que mudar. Não é possível ser igual. Estamos caminhando para um mundo de transformação. Hoje, não tem como mais fabricar colchão como antes. É preciso alterar as medidas, o tecido…Tem que inovar.

“O velho que não tem um jovem do lado, está andando para trás, assim como o jovem que não tem ao seu lado um ‘barbudinho’ [esses moleques que mexem com tecnologia] não consegue sobreviver”.

eMóbile: A Gazin tem muitas lojas no interior do Brasil. Como o Sr. aprendeu a lidar com a concorrência em locais com menos consumidores?

Mário Gazin: A Gazin começou em uma cidade pequena. Douradina (PR) é o segundo município com maior evasão rural. Em 1970, havia 33 mil habitantes e em 1990 passou para 4 mil. Então, foi por isso que a Gazin não avançou para o Paraná. No dia em que decidi mudar de cidade, fiz uma pesquisa e Douradina ganhou. Além do mais, eu já vendia bastante no estado do Paraná sem ter loja. Tenho lojas em grandes cidades e capitais, como Cuiabá, Feira de Santana, que tem 700 mil habitantes, e tenho enfrentado a concorrência. Mesmo na minha cidade há Magazine Luiza, Casas Bahia. Onde há pessoas, há facilidade, mais dinheiro.

Reprodução Facebook

Mario Gazin em sua loja em Campo Grande

Empresário em uma de suas lojas em Campo Grande

Quando eu me apertava um pouco eu corria para o Samuel Klein da Casas Bahia e contava a minha dificuldade e ele me orientava. Ele recomendava abrir loja em cidades grandes, mas eu dizia para ele que estava bem.

Não importa o tamanho do município, você tem que ser o melhor. Não posso aceitar que um concorrente venda mais que eu. Isso significa que ele não é melhor, eu que sou ruim. Há lojas em que o gerente não é bom. Então, temos que estar sempre brigando.

Motivando a equipe

eMóbile: Como o Sr. faz para manter a sua equipe motivada, mesmo quando o cenário econômico não está bem?

Mário Gazin: Tem que gastar dinheiro. Não tem como ser diferente. A Gazin deve ter gasto entre R$ 27 a R$ 30 milhões em educação. Isso é maior que o orçamento de muitos municípios com educação. É preciso treinar sempre. Não pode parar. Tem que participar de feiras, de congressos e seminários, buscar o apoio de entidades, como o Sebrae — que ajuda muito. Não dá para esperar milagre. As coisas não caem do céu. É serviço, serviço, serviço e sacrifício.

eMóbile: Como o Sr. avalia o acesso ao crédito no Brasil?

Mário Gazin: O Brasil é um país onde há muito crédito. O problema é que as pessoas deixam de pagar. Lá fora, há o refinanciamento. Quando o banco empresta um dinheiro, ele não quer mais receber o capital, mas todo o mês os juros. O Brasil é a única nação do mundo que vende no cartão de crédito parcelando em 10 ou 12 vezes. No mundo, isso não existe.

A diferença é que temos poucos bancos. Falta concorrência bancária no Brasil. A inadimplência está estável, mas a perda (quanto um cliente compra e não paga) aumentou. Há um grande consumo de cerveja. Acho que o pessoal não faz a conta direito e bebe muito. Parece que não, mas cerveja custa caro. Outro vilão é o IPVA. Hoje quase todo mundo tem carro. Há também a volta às aulas que impacta o orçamento das famílias. E se não programar bem, essas coisas acabam dando um desencaixe muito grande.

eMóbile: Neste ano, a Revista Móbile completa 40 anos. Qual é a importância de existir um veículo jornalístico voltado ao mercado moveleiro?

Eu acho que o pessoal da Móbile está de parabéns. Eu estou com a Móbile há 40 anos. Tenho 54 anos de mercado. Comecei primeiro. Não tínhamos nada. Vivíamos em um país escuro (na época da Ditadura) e, de repente, começou a nascer a Móbile, ainda na época dos militares. Isso foi clareando mais e mais. Não havia outro tipo de informação na linha moveleira que não fosse a Móbile. Hoje já há concorrentes, então, é preciso estar melhorando a cada dia. O jeito de 40 anos não é o mesmo de hoje, o jeito de fazer as coisas há 10 anos mudou, há cinco mudou também. É preciso sempre correr atrás.

Foto: Assessoria

 

 

 

 

 

 

 


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